Não era humano o que se apresentava a minha frente, em meio a penumbra que tomava conta da sala. A pele era coberta de pelos até onde se podia ver, o nariz, adunco e alongado em um formato totalmente impossível, as orelhas eram indiscerníveis em meio a cabeleira que lhe cobria a cabeça, e os olhos, meu Deus, os olhos… eram de um vermelho vivo, que brilhava, enfeitiçava, mas acima de tudo, aterrorizava.

Era uma besta-fera.

De sua boca saiam apenas alguns resmungos quase inaudíveis e completamente incompreensíveis. Seu corpo, no entanto, tinha um formato comum à um homem adulto, a despeito da pelugem que o cobria. Mas aquela besta-fera não era um homem, e sim um ser desprezível em sua aparência, assustador em sua condição e estava sozinho ali, naquele quarto ermo e sombrio.

Era enfim algo como que um monstro. E como monstro, estava preso, preso à uma cadeira, de uma forma em que seus movimentos ficassem restritos à cabeça, sendo todo o restante do corpo totalmente imobilizado. E aqueles terríveis olhos vermelhos, assim que se habituaram com a minha inusitada presença, voltaram-se para a janela pela qual há poucos instantes, entrei.

Infelizmente, para meu total desespero, neste momento a única e minúscula janela do aposento estava tão inatingível para mim quanto para a besta-fera que compartilhava a minha presença, uma vez que a altura em que ela se localizava era de cerca de três metros e meio, e não havia nada naquela sala vazia em que eu pudesse apoiar-me para alcança-la novamente.

Como pude ser tão estúpido? Nunca havia sido uma criança bisbilhoteira em minha infância, no entanto, agora que a juventude me acerca, a curiosidade bateu em minha porta e jogou-me nesse poço de abominação e ainda, para garantir meu total arrependimento pelos meus atos, fez minha fuga impossível.

Na tarde do dia anterior, como era de costume todos os dias, eu caminhava pela rua Confins durante o retorno do trabalho para casa, descontraído, mas um tanto cansado, quando ouvi o som que vinha daquela pequena janela ao nível da calçada. Era uma janela pequena e baixa, que possivelmente daria para um porão, e o som que chegou aos meus ouvidos era próximo de um gemido canino, mas não chegava a se assemelhar completamente a tal, parecia um murmúrio incorpóreo, vindo de algum lugar que não fosse deste mundo, e transmitia uma dor visceral, uma tristeza além de qualquer compreensão. Assim que estanquei perante a janela o som parou, o murmúrio cessou, a dor e a tristeza perderam a essência, a substância, que o traziam até mim como se fossem sentimentos táteis. Durante um momento nada mais ouvi, portanto imaginei ser apenas um delírio de minha mente cansada, e continuei o itinerário até minha casa.

O som perdeu-se em meus ouvidos a partir daquele instante, mas permaneceu como uma presença real e distinta em minha mente durante toda a noite, alimentando reflexões e provocando pesadelos durante meu sono, que nesta noite não foi nada agradável.

No dia seguinte, cercado de todos os pensamentos que haviam aflorado durante o meu período de descanso, cheguei à conclusão que deveria verificar a origem do som que inquietou minha alma e descobrir o mistério, sob pena de perder mais uma noite de sono saudável. Resolvi que, após meu período de trabalho, quando retornasse à rua Confins, iria investigar o que poderia ter acontecido, pois um animal não poderia ter emitido tal som, e minha mente agora perturbada, tinha sede de descobrir o que havia por trás do lúgubre murmúrio.

Ao chegar novamente próximo à janela, o som me atingiu mais uma vez, da mesma forma que na tarde anterior e mais uma vez cessou assim que me detive em frente à sua frente. Como a rua era pouquíssimo movimentada, sem medo de ser considerado um lunático ou então um ladrão, deitei-me no chão da calçada para vislumbrar o que havia atrás daquela espécie de claraboia. Durante um momento não consegui divisar nada na penumbra que tomava conta do ambiente, até que subitamente eu vi, aqueles dois rubis brilhantes, aqueles olhos vermelhos aterrorizantes, mas ao mesmo tempo fascinantes e arrebatadores. O que aqueles olhos expressavam, no entanto, era tristeza, desalento, uma profunda angústia. Meu ser então foi compelido, não sei se obra de minha mente curiosa, ou da compaixão em meu coração, mas sem pensar uma segunda vez, abri a janela e atirei-me adentro. Salvaria enfim aqueles olhos pesarosos que cativaram-me… mas tudo o que me aconteceu foi cair neste buraco, neste abismo, de onde não tenho mais esperanças de sair.

Desde minha abrupta entrada, pousando no chão frio como um pássaro desorientado que acaba de bater contra a janela fechada, não tive coragem de mover nenhum dos músculos do meu corpo. Assim que avistei a monstruosidade, que a princípio tinha por intuito salvar de sua infeliz condição, todos os meus membros foram tomados por um torpor tão poderoso que paralisou todo o meu ser. Agora, no mesmo nível que a besta-fera, pude contemplá-la melhor, e em sua face pude perceber um misto de cólera e surpresa pela chegada de um elemento estranho à sua rotina. Os grilhões que a prendiam eram de aço, porém os que me petrificavam eram invisíveis, criados por meu cérebro aterrorizado.

Não sei dizer exatamente por quanto tempo eu fiquei travado em minha posição inicial, talvez por minutos, ou então por horas. A partir deste momento a realidade assumiu uma nova constituição, meu mundo se resumia a esta sala lúgubre, a janela inatingível e a besta-fera a me encarar. Não há mais saída para meu mundo, não há mais volta, tudo está acabado…

E então, após este longo e interminável período de reconhecimento mútuo, a besta-fera desocupou-se de mim e voltou seus olhos escarlates para a claraboia, tão distante e tão inalcançável para nós dois. O ódio e a estranheza deixaram sua expressão para dar lugar ao que deve ter sido sua condição habitual nos últimos tempos, uma terrível tristeza e aflição. Neste instante meu ser foi tomado por uma profunda comiseração pelo sofrimento deste monstro, e o mais íntimo dos meus desejos era salvá-lo deste estado mórbido em que se encontrava. Mas o que poderia eu fazer, se estou também preso como ele nesta masmorra subterrânea?

Com a atenção da besta-fera voltada para a janela, meu corpo relaxou e meus músculos voltaram a responder aos estímulos. Meus olhos já estavam suficientemente condicionados à penumbra que escurecia o quarto, e então pude perceber como o monstro estava devidamente preso e imobilizado em sua cadeira de ferro. Sobre seus pulsos e cotovelos, pulseiras largas de ferro mantinham seu braço totalmente fixo à cadeira, e outras iguais prendiam seus calcanhares e joelhos. Finalmente, uma placa de metal prendia seu tórax de um ombro a outro. A besta-fera parecia quase fazer parte da cadeira, ambos sendo um só. Mas a cabeça movia-se e seus olhos queimavam.

Vendo o acondicionamento de meu companheiro de sala, senti-me mais tranquilo de sair de minha posição e buscar uma saída para a enrascada em que havia me metido, e assim talvez pudesse salvar esse pobre animal, se é que era um animal mesmo.

E foi então, antes de tomar qualquer atitude, que chegou aos meus ouvidos novamente o murmúrio incorpóreo, visceral, que havia presenciado enquanto estava ao lado de fora da janela. Ouvi-lo tão próximo era ainda mais assustador e dramático, o que me trouxe, a princípio, grande pavor. A entonação era parecida com um uivo, um ganido, de um cachorro ou então de um lobo, mas parecia não vir de nada tão vivo, tão comum, tão mundano. Era uma desolação sonora, que saía daquela criatura como ondas de dor e agonia tão palpáveis que era como se fossem transmitidas por um sentido inexistente nos seres conhecidos deste mundo. Aquilo entrou em meu coração e encheu minha alma de pesar e consternação. O ser que a emitia era um monstro, uma besta-fera, mas minh’alma não conseguia acreditar que ele a merecesse.

Este sentimento de pena me impeliu a levantar e procurar uma solução para nosso transtorno. Assim que levantei, súbita e automaticamente atraí novamente a atenção de meu companheiro de cela que, ao me ver circular pela sala, rosnou como um cão acuado rosna para seu opressor. Não me perturbei, visto que ele jamais conseguiria se livrar de suas amarras de metal para me atacar. Meus olhos estavam sim acostumados à penumbra, porém esta agora já se transformara em escuridão, visto o adiantado da hora, o que cegou-me quase completamente. Por sorte, pela pequena claraboia, a luz da rua chegava fragilmente até o interior do porão. Tateei pela parede buscando algo diferente, uma saída, uma porta, ou algo que pudesse nos tirar de nosso sarcófago, mas nada. As paredes eram de concreto, com exceção de um dos lados, em que o material era liso, como mármore.

E foi então que encontrei. Em uma reentrância na parede, havia uma escadaria apertada que levava para o térreo. Finalmente! Olhei para os dois rubis que me acompanhavam e havia esperança neles, de alguma forma aquele animal, aquele monstro, conseguia compreender minha descoberta e ansiava por ajuda. Acenei para ele, como quem promete que voltaria assim que encontrasse a saída e segui escada acima. Estava ainda mais escuro na escada do que na sala onde estavam, a fraca luz da rua não chegava até ali devido à reentrância na parede. Mas continuei em passos trôpegos, um pé de cada vez, até chegar ao topo, onde percebi uma porta de aço. Nossa, alguém queria garantir que o que estivesse ali embaixo, ali permanecesse. Girei a fechadura com toda a esperança que pude reunir, mas foi em vão, a porta estava trancada e nem sequer se movia um milionésimo de milímetro.

Oh, meu Deus, o que faço agora? Não há mais esperança para mim, como pude ser tão estúpido?

Desci novamente, degrau por degrau, devagar, para não correr o risco de tombar escada abaixo e quebrar o pescoço. Assim que cheguei novamente à sala, os olhos da besta-fera me encararam ansiosos, mas perceberam em minha expressão que não obtive êxito. Novamente o rosnado voltou, estava com ódio de mim mais uma vez. Mas não estava tão furioso comigo quanto eu mesmo, disso tenho certeza. Sentei-me no chão completamente desesperançado.

E foi então que vi, de início não consegui distinguir exatamente o que era, mas logo pude perceber o tubo que estava preso ao braço do monstro, provavelmente era sua alimentação, de forma intravenosa, talvez soro. Era assim então que ele sobrevivia… mas isso me trouxe uma questão que ainda não havia levantado: alguém estava mantendo a besta-fera presa aqui, e deveria ter algum sórdido motivo para isso. Um calafrio percorreu minha espinha. Aquilo não podia ser algo bom, jamais, e agora eu estava metido nisso até o pescoço.

Meu Deus, como pude ser tão estúpido? Agora estou condenado…

Mas calma, não é hora para desespero, preciso ser racional e encontrar alguma solução para meu infortúnio. Há de existir alguma forma de sair deste intrincado problema e vislumbrar novamente a luz maravilhosa do dia.

O ar estava pesado ali dentro. A noite já se via alta e quase nada se via dentro de nossa prisão. Durante o que imagino ser o período de uma hora, passei vigiando a pequena claraboia na esperança de algum transeunte aparecer, ao qual eu iria prontamente gritar por socorro. Este era o plano. Seria possível que ninguém mais utilizasse esta rua além de mim? Buscando em minha memória, realmente nunca deparei-me com ninguém enquanto por ali andava. Era estranho, muito estranho. Não faz muito tempo que transpus aquela pequenina janela deixando meu mundo para trás mergulhando neste obscuro calabouço, mas minha mente parece já ter abdicado da sanidade. Realmente caminhei sozinho por aquela melancólica e abandonada rua? Seria ela talvez apenas um portal enigmático para este mundo insano em que me encontro? Quem sabe alguma força sobrenatural me trouxe até aquele exato momento? Seria eu um escolhido para sofrer este tormento em minh’alma? Seria eu merecedor desse martírio psicológico? Oh meu Deus, o que eu fiz? Terei eu tanto assim a expiar?

Sem perceber, as lágrimas tomaram conta do meu rosto. O desespero estava apertando minha garganta, sufocando minha consciência, extirpando o vigor do meu corpo. Eu estava enlouquecendo, perdendo o equilíbrio. Em meu degenerado estado de espirito havia inclusive esquecido de meu companheiro de suplício, a besta-fera, que me olhava agora compadecida da minha aflição. Éramos agora colegas na dor e no desespero, isso é o que o seu olhar refletia, alguém que compreende no outro um sentimento pelo qual já passou, e neste caso, um sentimento medonho e funesto. Há tempos não mais dirigia seu rosnado colérico para mim. Deixamos de ser adversários e agora somos amigos. Uma amizade exótica e singular é bem verdade, mas neste momento só temos um ao outro para nos alentar.

No entanto, o bálsamo de conquistar um novo amigo não aliviava a profunda angústia que tomou conta de minh’alma. Já deviam ter passadas várias horas desde o momento em que me atirei para a perdição, e neste interim, minha lucidez havia se esvaído completamente e minha razão perdera-se de mim. Minha consciência estava mergulhada em um insano desvairio.

Oh meu Deus… oh meu Deus…

Nenhum ferimento me foi imposto, nenhum mal físico se abateu sobre mim, sequer um inimigo esteve em qualquer momento a me intimidar. Éramos apenas eu e a besta-fera. Mas esta dor que sinto é pior que qualquer ferimento, qualquer violência, ela degradou minha mente até a insanidade. Mais um pouco e me levará à total demência, tenho certeza.

E então, subitamente, meus atormentados devaneios foram interrompidos. Vozes. Passos. No andar de cima, pessoas conversavam e se dirigiam à porta do porão. Não era possível ouvir o conteúdo de seus diálogos, mas este fato novo chamou a atenção dos dois cativos. Finalmente alguém estava para chegar. Um fio de esperança começou a preencher meu peito, voltei a encontrar minhas forças, algo enfim poderia aplacar meu tormento. Voltei-me para meu novo amigo e compreendi que não havia motivo de alegria no que viria. O que aqueles olhos vermelhos continham era o mais profundo terror. A respiração da besta-fera estava acelerada e ela estava inquieta e agitada sob os grilhões que a prendiam.

A visão do estado em que se encontrava meu companheiro me aterrorizou. Percebi o perigo que aquelas pessoas representavam. Eram as pessoas que mantinham o monstro preso, e suas intenções com este procedimento deveriam ser as mais torpes possíveis.

As luzes do quarto se acenderam. O que vi conseguiu ainda me surpreender. Era uma sala completamente asséptica, limpa, como um hospital. O lado da parede que era lisa, na verdade era uma grande divisória de vidro, através da qual se via uma grande quantidade de equipamentos médicos e um sofisticado laboratório. E a besta-fera, meu Deus, era realmente uma monstruosidade. Seus olhos vermelhos eram agora ofuscados pela iluminação da sala, mas sua aparência era horrível, assustadora, uma aberração, uma besta-fera. Entretanto algo me trouxe novamente a compaixão pelo meu companheiro: sua expressão demonstrava o constrangimento que sentia por ter sido desnudada a sua verdadeira aparência. Estava embaraçada comigo, pois era consciente de sua condição, de sua repugnância. Éramos amigos na dor, e compadecido de sua vergonha, consegui esboçar um sorriso, buscando demonstrar minha simpatia à nossa situação. Ao ver meu ato de solidariedade, a besta-fera sentiu-se mais confiante, e mesmo em sua monstruosidade, pude perceber algo como um sorriso surgir em sua feição abominável. Estamos juntos em nossa dor.

A porta se abriu, atraindo nossas atenções e trazendo o horror novamente a nossos corações. Passos descendo os degraus. Precisava me esconder. Atrás de mim, próximo da pequena janela, havia uma prateleira de aço fortemente fixado na parede. Não era muito grande, mas fornecia algum abrigo para minha necessária camuflagem. E então dois homens, de jaleco verde claro apareceram pela reentrância na parede e, ao vê-los, o monstro rugiu enfurecido, o que sequer atormentou os novos integrantes de nosso calabouço. Estavam calmos e sorridentes. Chegaram próximo à besta-fera.

“O espécime ainda está vivo… isso é um grande progresso” foi o que disse o médico-cientista baixinho, olhando o monstro e se dirigindo ao seu companheiro de profissão. “Sim, já é um passo a mais” disse o médico-cientista mais alto e de porte atlético. Nenhum deles notou minha presença pois estavam de costas para onde me encontrava, e à minha direita, a cerca de 5 metros, estava a reentrância na parede que dava para a escadaria. Oh meu Deus, obrigado, é a minha chance de fugir deste pesadelo.

“No entanto, apesar de reagir à aplicação do soro, os efeitos colaterais psicológicos e físicos prejudicaram a amostra” disse novamente o esverdeado baixinho. “Sim, ainda temos muitos passos a seguir até encontrarmos a fórmula perfeita” ponderou o alto e atlético. Prendi a respiração, não poderia chamar a atenção deles se quisesse sair daquele insano cárcere. Pisando delicada e vagarosamente, procurando não emitir o menor ruído, segui meu trajeto para a salvação. Cerca de 7 passos e já estaria na reentrância, e então na escada não mais me veriam. Eu precisava sair daquele lugar. Meu coração batia altamente acelerado no primeiro passo. No segundo passo, ele parecia ter encontrado o caminho para saltar para fora de minha boca.

“Mas estamos próximos, muito próximos, talvez devamos dosar melhor os hormônios…” analisou o mais alto, enquanto o baixinho coçava seu maxilar inferior, raciocinando. Ambos olhavam fixamente para meu amigo, a besta-fera, e em minha caminhada eu podia ouvi-lo rosnando para eles. Já estava no terceiro passo e minha mente mal podia refletir qualquer pensamento, já que estava completamente dedicada à minha importante empreitada, que me levaria novamente ao mundo real, à minha vida normal.

Em meu quarto passo, sem a intenção, virei-me para contemplar uma última vez o rosto do meu companheiro das últimas horas de desespero. O monstro estava transtornado em seu ódio, dirigindo toda a sua raiva aos seus dois captores. Era um refém naquela sala, mesmo que não tivesse uma vida racional, mesmo sendo um animal, uma besta-fera, não merecia o cárcere bárbaro e cruel que lhe estava sendo imposto. Eu tinha que sair daquele cativeiro, já que eu não estava preso a nada e sequer os captores sabiam da minha presença, eu tinha uma vantagem em relação a eles e só me restavam três passos para a completa liberdade.

Um quinto passo e minha mente aumentou minha resolução em sair e procurar uma forma de salvar meu amigo e companheiro de cela. Sem olhar, pude perceber que os médicos-cientistas estavam executando algum procedimento sobre a besta-fera, visto que ela aumentara insandecidamente seus rugidos, que já estavam transformando-se em gritos de dor e ódio. Eu precisava fazer alguma coisa em relação a isso, tinha que sair dali e encontrar justiça para o que estavam fazendo contra este pobre animal, desprovido de sua liberdade e vítima de experimentos repulsivos e dores insuportáveis. Não havia ninguém por ele, nenhuma alma que pudesse protege-lo, ajuda-lo ou salvá-lo. Apenas tinha a mim, éramos companheiros na dor e no desespero, então eu tinha uma obrigação, a responsabilidade de libertá-lo de seus grilhões. Mas não poderia fazer isso sozinho, ah não, não tinha essa capacidade, e seria muito perigoso, caso os médicos-cientistas portassem algum tipo de arma, para sua proteção pessoal. Eu teria que sair e encontrar a polícia e trazê-los ali. Sim, seria este meu itinerário.

“Uma reação realmente negativa, toda essa violência gerada” disse o baixinho resignado. “Sim, infelizmente teremos que sacrificá-lo…” o mais alto disse com convicção e suas palavras acertaram em cheio meu cérebro. Toda a minha concentração, toda a minha vontade, todos os meus planos, de repente viraram fumaça e meu coração sensibilizado forçou minhas cordas vocais a tomarem uma atitude impensada e como viria a saber depois, totalmente infeliz.

“Não!” minha voz saiu alto dentro daquela sala fechada, gerando um eco que não saberia dizer se havia sido real ou apenas reflexo do arrependimento precoce em minha mente. Os demais integrantes do porão asséptico se surpreenderam com minha atitude, os dois médicos-cientistas voltaram-se rapidamente em minha direção, e a besta-fera calou-se por um instante, acredito que em seu ódio havia inclusive esquecido de minha presença.

“Olha só o que temos aqui, que surpresa…” disse o mais alto. “O que você está fazendo aqui garoto? Como entrou aqui?” falou com uma expressão preocupada o baixinho. “Ah, não vê que isso é uma solução para nossos problemas?” o mais alto agora estava se dirigindo ao baixinho, que abriu assim um sorriso enigmático.

“Larguem ele, ou eu irei denunciá-los” disse eu corajosamente, enfrentando os dois médicos-cientistas, que apenas riram da minha ousadia. O baixinho pegou uma espécie de pistola e apontou para mim. “Fique quieto, filho, não queremos te fazer mal, mas não se mexa” disse então. Ver a pistola apontada em minha direção encheu-me de terror. Oh meu Deus, o que fui fazer? Quanta estupidez estou apto a praticar? Devo morrer agora por minha tolice, não há mais escapatória.

E neste momento, no auge de seu ódio por ver a mim, seu companheiro e único amigo em perigo iminente, a besta-fera usou de toda a força que havia em seu ser animalesco e monstruoso para quebrar suas algemas e completamente transtornado pela raiva saltou sobre o médico-cientista baixinho, fazendo com que sua pistola fosse jogada longe. No mesmo instante um alarme soou por toda a sala e fora da sala também, provavelmente acionado pelo médico-cientista mais alto, que prontamente pulou também sobre a besta-fera, para aplacar seu ataque sobre o companheiro baixinho.

Vi neste momento a oportunidade de finalmente fugir, mas neste exato instante senti um baque nas minhas costas que me jogou ao chão quase desacordado e tiros foram disparados sobre a besta-fera, derrubando-a ao chão. Uma pequena tropa de seguranças havia descido as escadas em uma velocidade incrível e investido sobre nós. Tudo estava enfim consumado, e minha morte agora seria iminente. Não há mais esperanças, a besta-fera, meu amigo e companheiro devia estar morto, e eu não iria muito longe em meus sinais vitais.

“Não matem este…” berrou o médico-cientista alto, apontando para mim. “Não o matem, apenas segurem-no por um instante” repetiu ressaltando seu comando, enquanto levantava e apanhava a pistola antes empunhada pelo médico-cientista baixinho, este que também estava levantando e recuperando-se do ataque sofrido pela besta-fera. O mais alto então apontou a pistola em minha direção e então senti o impacto do projétil em meu peito. Essa foi a última sensação que percorreu meu corpo, depois disto, meu espírito me abandonou, meus sentidos apagaram-se e meus músculos definharam.

Era o fim.

***

“Os sinais vitais estão bem, nem sinal de fibrilação”. Meus olhos estavam abertos, mas eu não conseguia enxergar nada, tudo parecia um grande borrão, nenhuma imagem nítida se formava. “Os olhos estão começando a responder aos estímulos” e com a frase uma luz forte e direcionada atingiu meu globo ocular com força. Meu corpo estava flácido, nenhum de meus músculos respondia aos meus comandos. “A musculatura ainda não responde aos estímulos”. Minha mente parecia um mingau, nada se encaixava, todos os meus pensamentos, todo o meu raciocínio, pareciam flutuar em um mar de inconsciência. Onde estou? Como vim parar aqui? Quem são vocês? Eu queria fazer estas perguntas, mas elas não paravam de boiar hesitantes, indo para lá e para cá, meu cérebro não conseguia conectá-las racionalmente. Que sensação de fragilidade e vulnerabilidade.

“Ainda encontra-se inconsciente”, sim, e perdido neste mar de obscuro desvairio. “Conseguiremos salvá-lo”, seria uma pergunta ou uma afirmação? “Sim, os sinais estão melhores do que o previsto, em breve estarão controlados”. Oh Deus, obrigado. Tudo ficará bem, eu sei. “Os sinais já estão estabilizados completamente”, sim, e já me sinto melhor.

“Então agora conecte o soro…”

***

Aos poucos, minha mente retornou ao estado normal. Mas era estranho, pois não fora como se eu acordasse lentamente, mas era como se minha consciência voltasse com meu corpo em pleno funcionamento. Estava muito escuro à minha volta mas, de uma forma insólita, eu conseguia enxergar tudo, como uma espécie de visão noturna. E era uma vista muito familiar. Eu via a grande sala, o mesmo porão asséptico em que caí, o cárcere da besta-fera, o monstro que fora meu companheiro de horas desesperadas, via as paredes de cimento, escuras e limpas, e a reentrância na parede que dava para a escada, que um dia foi meu sinal de salvação. Ledo engano. Vi também a pequena claraboia, a janela que me trouxe para a perdição. E não via mais nada, nem ninguém.

Percebi que estava sentado, e olhando para minha condição, vi as pulseiras de aço que me prendiam a cadeira, a mesma cadeira em que estava preso o animal. E então eu vi, oh meu Deus, oh meu Deus, que abominação… Senhor, que isso seja um sonho, um pesadelo, um desvairio da minha mente, não posso acreditar… Eu vi meus braços e pernas cobertos de pelo… não meu Deus, eu não…

Minha mente desconectou do mundo, e então voltou. Algo surgiu em meu peito, não era dor, mas sim algo mais forte, um sentimento de desespero que estava aos poucos transformando-se no mais puro ódio.

Olhei para a minha esquerda, lá estava a divisória de vidro, e nela pude ver os dois pequenos rubis acessos que agora eram meus olhos. Quis desesperadamente chorar, mas por alguma condição fisiológica, não consegui, eu não tinha mais esse escape para meu desespero. Tudo o que pude fazer foi virar meus olhos para a janela, minha única e derradeira conexão com o mundo real, e então eu gritei, como todas as minhas forças eu gritei, mas tudo o que sai de minha boca foi um som visceral, um murmúrio forte e totalmente incorpóreo, algo que não parecia deste mundo. Minha vida agora era o desespero.

Agora eu era a besta-fera.

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