Os olhos se abrem.

A relva fresca é agradável ao olfato. Assim como os olhos, suas narinas se abrem respirando o ar da manhã.

“Que lindo dia!”, pensa consigo. “Mas afinal onde estou?”

Olhou ao seu redor e viu um clarão aberto, uma bela campina com a relva baixa e bem cuidada. Não lembrava de ter estado ali algum dia, era um ambiente totalmente novo para ele. Encantador, mas uma novidade em sua percepção. Um espaço estranho e desconhecido, mas aprazível.

A pequena campina era circundada por uma mata muito densa e fechada, composta de árvores altíssimas e de troncos grossos, o que indicaria que tratava-se de uma floresta antiga, e que não permitia que nada além delas fosse visto. O sol estava alto no céu, quente e aconchegante, mas através daquela pesada floresta parecia haver nada além da escuridão, pesada e assustadora.

Levantou-se e caminhou por sobre a grama ainda úmida do sereno matutino. Não conseguia lembrar-se de nada antes de abrir os olhos, era como se tivesse nascido agora. Ou talvez o que tivesse se passado não era digno de lembrança, quem sabe?

Sentia-se feliz e seguro. Mas algo estava surgindo em seu amago, uma certa curiosidade clandestina, que parecia vir de dentro de seu peito, mas que era repelida pela sua consciência tão logo chegava próximo de seu cérebro. Mesmo sendo ferozmente repelida, algumas poucas fagulhas conseguiam enfim alcançar os seus olhos. Virou-se e olhou para a mata fechada.

“O que será que há do outro lado?”

O simples questionamento sobre o algo a mais causa-lhe, de forma instantânea, náuseas, prevenindo-o de que seu lugar era aqui, e o que havia lá era demasiado perigoso para ser tentador.

E subitamente um estremecimento passou por sua espinha, arrepiando os cabelos da nuca. Seu corpo ficou tenso, e seus ouvidos buscavam reconhecer o que havia chegado até eles como um ladrão. Estático, buscava identificar de onde aquele som viera.

“O que é isso?”

Aterrorizado olhou em direção à mata fechada. Viria de lá esse som? Era algo ainda baixo e sem resolução, mas claramente vinha do outro lado da parede natural que o protegia. Era um ruído perturbador em sua origem. O que estaria produzindo esse barulho persistente?

Animais? Será que perigosos ou inofensivos? Seriam bandidos, vindo atrás dele? Assassinos? Ou então máquinas ferozes que buscavam destruir tudo o que ele possuía aqui?

De repente percebeu que estava com medo de pensar no que poderia estar lá. Se estava tão longe dele assim, e tão escondido, não era nada com que devesse se envolver. Era um mundo completamente diverso do dele e estava lá, tão longe, enquanto ele estava aqui, seguro e feliz. Queria se esconder, o que quer que fosse, queria que nunca o encontrasse, eram invasores, selvagens, que o subjugariam e o matariam. Olhou ao redor, conseguiu encontrar uma pedra em um dos lados da campina. Sim, lá eu poderia me esconder. Enquanto se dirigia para seu refúgio, surgiu em sua mente uma dúvida muito consistente: há pouco havia caminhado por boa parte da relva, e com certeza olhara para todo o terreno, que era totalmente plano, e não havia nenhuma pedra como a que estava vendo neste momento.

“Que estranho”.

No entanto, era mesmo um bom lugar para abrigar-se enquanto aquela ameaça passava. Estava aqui, onde era seu lugar, e deveria manter-se aqui, e o que quer estivesse lá, não lhe era comum, então deveria manter distância, tanto quanto pudesse, e estava resoluto a manter sua posição.

Chegou até a pedra, que tinha cerca de um metro e meio de altura, por um metro e meio de largura, de composição irregular, mas serviria. Sentou no lado oposto ao som, com as costas voltadas para a lateral da pedra e fechou os olhos. Nada do que ouvira deveria ser alarmante, pois logo passaria e ele voltaria a sua vida normal, como sempre fora.

“Vida normal? Como sempre fora?”

Um curto instante, em que as defesas de sua consciência baixaram a guarda, estas duas perguntas rasgaram sua mente com um questionamento direto e muito pertinente: que vida era essa da qual ele sequer lembrava? Havia realmente vivido antes de abrir os olhos a poucos minutos atrás? Se tivera uma vida, como não conseguia lembrar-se de nada? Não conseguia responder estas perguntas e isso o estava enlouquecendo, e só o que efetivamente sabia era que tinha que voltar a viver a sua vida comum, sem a influência maldosa do que estava do lado de lá. Essa era a única certeza de sua vida. Era a maior de todas as certezas. Mas algo estava queimando seu peito, como uma chama tenaz e perseverante, de que existia um algo a mais, um caminho mais longo, um mundo maior. Mas assim que essa chama aquecia seu peito, a náusea aflorava em seu pescoço, subindo para a boca e ao nariz, até escurecer totalmente os olhos, fazendo-o sentir todos os poros de seu corpo exalando dor. Não queria um caminho longo, um mundo maior, nenhum algo a mais, pois tudo isso era muito difícil…

E então, em um rompante, os sons aumentam de volume. Seu coração acelera, os olhos, já fechados, apertam-se ainda mais, seu corpo todo estremece com o medo e a excitação que a expectativa de algo ruim trazia a seu íntimo. Era terrível o que se aproximava, talvez até já estivesse à espreita na mata fechada, e logo avançaria sobre ele. Seu ser foi tomado de completo terror, contraindo todos os seus músculos em um espasmo de pânico. Exprimido junto à pedra, seus sentidos trouxeram-no uma constatação ainda pior, pois agora percebia que o som do horror vinha de toda a alta floresta que circundava a campina, todos os lados estavam preenchidos de medo e aflição.

Assim que seu terror e medo chegaram no ápice, subitamente sua mente empertigou-se. O desespero havia destravado as proteções de sua consciência e novamente a curiosidade do que havia do lado de lá tomou conta de seus pensamentos. Completamente concentrado em sua percepção do som, pôde discernir algumas similaridades comuns a todos os seres humanos. Haviam vozes, mas que diziam coisas que ele não conseguia entender. Havia um barulho de máquinas que ele não podia reconhecer. E havia uma sensação de amplitude, de uma vasta dimensão, à qual não lhe era familiar, afinal ele estava aqui, e aqui era calmo, tranquilo, feliz, porém um tanto restrito.

A ideia de uma nova dimensão, de uma imensidão fora de seus domínios, o oprimia, algo assim tão grande poderia consumi-lo completamente. E ele estava aqui, não queria nada a mais. E essas máquinas, não pareciam nada amigáveis, provavelmente passariam por cima dele e o esmagariam como folhas pisadas ao chão. Eram um absurdo em sua mente, seres barulhentos e fantásticos, um mundo maior, que parecia querer engolir tudo o que ele tinha aqui.

E essas vozes? Esses seres desconhecidos? Seriam deuses, que estão acima do seu entendimento, uma vez que falavam sobre coisas tão estranhas a seu mundo normal? Era como se falassem uma outra língua, com palavras e suposições completamente incompreensíveis. E conversavam sobre coisas tão irrelevantes, tão desnecessárias à vida comum, que quase tinha pena deles. Se deuses fossem, deveriam cuidar mais de suas vidas e não conjecturarem esse tal algo a mais…

A náusea aproveitou seu momento de divagação e atacou novamente, afligindo o corpo inteiro. A única certeza que tinha, a maior certeza de todas, era de que estava feliz e seguro. Sentia a convicção de que fazia parte daqui, onde estava e que compreendia completamente, sem arrombos de dimensões imensas afora. Respirou fundo, respirou o ar puro e fresco da manhã, suas mãos, deitadas sobre a relva sentiam os resquícios do orvalho da manhã. Seu coração se acalmou, seu corpo se viu livre da náusea. Sim, estava realmente em casa.

Como uma fuga de sua mente, pôde perceber na conversa dos seres misteriosos, uma palavra: amor. Já a ouvira muitas vezes, já a falara muitas vezes, não lembrava quando, nem como, já que não tinha em sua consciência nada além daqueles parcos últimos momentos, mas tinha uma convicção em sua mente: não tinha a menor ideia do seu significado. Agora que percebia isso, achava muito estranho conhecer uma palavra, já tê-la pronunciado inúmeras vezes, e não compreender o seu conteúdo, seu sentido, sua importância. Provavelmente não tivera muito valor em sua vida pregressa, por isso sua ignorância quanto à suas aplicações. Mas ouvia esses seres deuses-mistério pronunciarem esta palavra com tanta paixão e fascínio, que era impossível chegar à conclusão de que ela não tivesse um significado mais valioso. Sua cabeça doeu… oh, é muito difícil tudo isso… muito difícil e complicado…

Novamente se encolheu junto à pedra. Não queria sair daqui. Aqui era seu lugar, e nada poderia demover-lhe de sua resolução. Essas bestas ferozes que simulam conhecimentos nunca vistos nem aspirados por ele, deveriam ficar mesmo do lado de lá, onde era seu lugar. E essa imensidão que os cerca, é tão opressora, que tudo o que ele queria era ficar bem distante dela.

Aqui estava seguro, e feliz.

Por outro lado, no entanto, aquelas conjecturas que ouvira pareciam tão atraentes, como se esses seres o chamassem para estar com eles e compartilhar de seus conhecimentos. Mas sabia que havia um preço a pagar por isso, teria que sair de seu lugar comum, de seu porto seguro, e encarar a escuridão do desconhecido que havia através daquela densa floresta.

Estaria disposto a isso? A náusea parecia tentar dissuadi-lo a não arriscar seu mundo de paz e sossego, mas a cada momento sentia-a mais fraca, com menos convicção em mantê-lo aqui. Era realmente um grande desafio, e a imensidão desta nova dimensão poderia asfixiá-lo.

Seria uma decisão de extrema importância, visto que não poderia desfazê-la, uma vez tomada a atitude. Não haveria volta. E então ele entendeu, viu claramente a sua frente a verdade: não se lembrava, mas sempre estivera aqui, só nunca havia tido consciência disso. A campina despojada de vida sempre fora sua morada, mas nunca a tinha visto como a via agora, desde que acordara com o rosto na relva. Aqui sentia-se seguro, pois aqui ele conhecia cada cantinho do terreno, mesmo sendo uma pequena extensão de campina, sem atrativo algum. Aqui sentia-se em paz, ou pelo menos sempre sentiu-se em paz, visto que agora aquela pequena chama que se arriscava em seu peito à pouco, estava abrasando todo o seu ser.

O que quer que houvesse lá, além floresta, era desconhecido e novo para ele. Teria coragem de arriscar-se onde não poderia sentir-se seguro? Hesitava em acreditar que poderia conter toda aquela imensidão em seu ser. Tinha medo do que lhe aconteceria se ousasse.

Subitamente tomou conta da ausência da sua rocha-abrigo. Estava nú novamente, despojado, sem qualquer proteção. De um lado, os sons que se avolumavam a sua volta continuavam a seduzi-lo, mas de outro era a insegurança em sua consciência buscando demovê-lo desta resolução fatídica.

Uma última vez a náusea tomou seu o corpo a partir de seu pescoço, e então ele viu a sua frente um poço, e soube que aquela era a sua saída para voltar a vida que sempre teve, onde fora feliz durante toda a sua vida, onde sentia-se seguro e em paz. Era tentador jogar-se novamente na escuridão daquele poço e voltar a uma vida de tranquilidade e ignorância, onde não haviam sons perigosos e nem imensidões famintas.

Deu um passo, resoluto, queria ser feliz novamente, onde quer que fosse. Mas tão rápido quanto viera, a resolução desvaneceu-se no ar. Não tinha como voltar, agora tinha sido tocado pelo novo, tinha sido visto pelo desconhecido que o convocava à sua presença. Sabia que não haveria mais volta. Percebeu agora, que sequer desejava voltar, o que sua consciência agora queria, era abrir-se para o que quer que houvesse lá.

Virou-se e, de costas para o poço, encontrou, em uma margem da densa mata que o cercava, uma pequena fresta entre as arvores. Sim, este era o caminho. Não precisava mais pensar, já estava decidido o que faria. Sorriu agora pensando se já não estava tudo decidido desde o momento em que abriu os olhos, logo a pouco. A cada passo, seu corpo deixava a náusea para trás. A cada metro percorrido em direção a esta nova dimensão, abandonava pouco a pouco sua vida pregressa incipiente. Sem mais insegurança, sem mais medo. A sua certeza, sua única e maior certeza, agora era outra.

Não pertencia mais ao aqui, estava sendo aguardado no lá.

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