Fora bem tratado nos últimos seis dias, antes de sua execução. Recebia refeições duas vezes por dia e deram-lhe vestes limpas. Eram vestes simples e grosseiras, mas estavam limpas. No entanto ficou todo o tempo trancado em uma pequena cela, onde havia uma cama bem rústica e um local para suas necessidades básicas. Havia também uma janela, bem pequena na verdade, mas ao menos podia ver o brilho do sol durante o dia e a luz da lua durante a noite, sem contar o ar puro que entrava por esta pequena entrada suavizando o ambiente, muito diferente do ar pútrido, com cheiro de sangue e morte que experimentara durante sua estadia na cela de purgação. Estava bem, e sentia-se muito melhor e mais saudável.

Nos primeiros dias, Franz Gilbert estava aliviado e feliz com a resolução que seu caso tomou. Não teve muitas dificuldades para conquistar novamente o perdão de Deus por suas heresias e agora estava novamente salvo, podia novamente esperar o Paraíso e estava livre do Inferno. Com o passar dos dias, lembrou-se gradualmente de sua vida anterior, de tudo o que ocorrera, lembrou de sua mulher e seus filhos, da felicidade diária e da alegria que vivenciara por ter uma família unida. No entanto a dor, o sofrimento e um forte sentimento de remorso tomava conta de seu coração quando lembrava que seu querido Rupert morrera devido a seus pecados. Sentia-se profundamente culpado por tudo o que acontecera em sua família e não conseguia perdoar-se.

Com o passar dos dias e seus longos períodos de reflexão solitária dentro daquela diminuta cela, a razão foi aos poucos retomando o lugar em sua mente perturbada e Franz não conseguia entender como tudo acontecera na verdade. Não tinha a menor lembrança de ter participado de cultos satânicos, orgias pervertidas e malignas e tudo do que tinha sido acusado e julgado culpado. Poderia sim ter perdido estas memórias pelo simples fato de ser sido possuído por algum ser maligno, mas o fato é de que não lembrava de um só momento em que sua vida não havia sido feliz e completa. Sua memória não lhe parecia mais de modo algum fragmentada, ele tinha completa certeza de tudo o que vivenciara até ali. Mas por que sua mulher, sua querida Marieta, o havia entregado à morte assim, sem motivos? Seria ele um péssimo marido e nunca percebera?

Era triste pensar nisso. Tudo o que mais amava na vida tinha lhe sido arrancado à força. E aquilo tudo soava para ele como sandices, nada parecia real. Nunca ouvira falar de bruxas, demônios, cultos satânicos, orgias de qualquer classe, ou qualquer dessas heresias ocorrendo ali no vilarejo. Todos viviam em paz e felizes, as famílias eram muito amigas e se conheciam bem, o povoado prosperava, crescia e tudo parecia em ordem. Até o dia em que o Tribunal do Santo Ofício instalara-se lá. O padre titular fora enviado para outra cidade e os inquisidores tomaram conta dos fiéis. Era bem verdade que haviam pessoas que tinham um pensamento bastante liberal, ouviam e seguiam alguns ensinamentos do tal de Lutero, que queria mudar tudo, mas a maioria fugiu do vilarejo assim que os inquisidores chegaram e os que ficaram já haviam sido queimados em outros autos de fé, ou ainda mudaram completamente suas convicções por amor a seus pescoços. Mas ele sempre fora fiel à Igreja, seguira sempre todos os ensinamentos do Padre Martin, e sua família era católica apostólica romana e respeitava todos os princípios da Igreja.

Nada fazia sentido.

Uma convicção estava formando-se em sua mente, estava florescendo ainda, mas já tomava uma grande parte de seus pensamentos. Lembrava-se muito bem da influência que o Tribunal do Santo Ofício, principalmente por seus espetáculos de autos de fé, tinha sobre toda a população do vilarejo que hoje já se tornara uma cidade. No início, as pessoas estavam inflamadas pelas heresias pregadas contra a fé católica, conforme a pregação feita pelos inquisidores durante todas as missas, e exultavam com a morte de cada um dos perversos hereges, mesmo sendo esses amigos de longa data. Ele próprio nunca havia participado de qualquer auto de fé, mas já estava praticamente convencido de que a justiça de Deus estava realmente sendo feita ali.

Com o passar do tempo, todos os ditos hereges já haviam sido dizimados e não havia mais nenhum protestante ou ateu entre eles, ninguém que contestasse os ensinamentos da Igreja Católica, no entanto o medo e a insegurança estavam maiores do que nunca. Os inquisidores precisavam de uma justificativa para continuarem a sua purificação do povo de Deus e incentivavam a todos para que delatassem qualquer desvio de conduta de um fiel católico, com o pretexto de encontrar os hereges que estivessem infiltrados no seio do rebanho da Igreja, escondendo suas identidades de pagãos. Os lobos entre os cordeiros. Mas não era só isso, esse argumento tornava todos os cidadãos desta pequena, porém próspera cidade em potenciais suspeitos, e todos viviam com medo de serem entregues por motivos absolutamente banais.

Marieta sempre fora uma frequentadora fiel da Igreja e das missas, mas nos últimos tempos, antes de entrega-lo, ela realmente estava participando ainda com mais veemência. Seria possível que ela o havia entregado por medo? Ou ainda buscando uma segurança, um salvo conduto para que não pudesse ser ela a acusada por mais ninguém? Fazia certo sentido, mas por que ela haveria de entrega-lo? A ele, seu próprio marido, pais de seus filhos? Será que havia se tornado uma fanática religiosa e vira nele um herege? Ou será que ganhara alguma compensação financeira para que auxiliasse os clérigos a receberem um réu? Mas não fazia sentido, e ainda assim ela permitiu que o pequeno Rupert morresse… como permitira isso?

Não conseguia entender o que acontecera. A única certeza que tinha em seu coração era de sua inocência de todos os crimes a que fora acusado. Nunca, jamais, participara de algo assim, sua vida sempre havia sido digna, e sua moral, ilibada. Não havia justiça nenhuma ali, muito menos a justiça divina. Mesmo estando aprisionado e tendo sido condenado à morte por representantes de Deus nesta terra, ele ainda acreditava em Cristo, na Igreja, em Deus. Pois para ele, o verdadeiro Deus era aquele do qual o padre Martin falava em suas belas homilias, um Deus de amor, de compreensão, um Deus que é pai e justo com todos. Certa vez em uma de suas missas o padre dissera que Deus não toma parte no livre arbítrio das pessoas, pois se assim fosse não haveria liberdade de escolha para ninguém, seríamos como marionetes e não seria necessário provar sua bondade de coração, já que Deus não permitiria qualquer maldade. Mas é necessário que o mal se prove mal e o bom se prove bom, para que a justiça divina seja implacável contra os que viveram uma vida de maldade. O inimigo, enfim, também tinha os seus nesse mundo.

Mas era muito irônico o fato de que os que se auto proclamam representantes de Deus, na verdade faziam o serviço do diabo. Sim, pois não haveria de ter santidade em matar pessoas inocentes, seja qual for o propósito. Mas esta era uma questão delicada. Agora poderia interpretar com mais racionalidade a expressão do inquisidor-mor enquanto o julgava, há poucos dias atrás, e percebia que aquele homem acreditava piamente no que estava fazendo, o nível de insanidade de seu fanatismo não o permitia perceber o quão injusto, arbitrário e cruel estava sendo. Ele se sentia realmente a mão direita de Deus, castigando os infiéis, e salvando os filhos de Deus da ignominia.

O quanto ele, o inquisidor-mor, era culpado por tudo isso? E o quanto ele estava sendo manipulado por outros? Ou o quão influenciado ele foi pela nomeação para um cargo tão importante e a designação cega para uma missão de tão grande importância política para a Igreja? Franz imaginava que aquele pobre homem sequer sabia o que estava fazendo, apenas cumpria cegamente as ordens que recebia, não vendo a crueldade de seu julgamento, o que para ele era na verdade misericórdia e compaixão pelos pobres pecadores que eram torturados e condenados à morte, para serem salvos das mãos do demônio.

Apesar do estado em que estava, não conseguia mais sentir ódio dos que o condenaram a estar ali. Sua mulher, que o entregou injustamente, estava tão perdida e confusa em sua vida que merecia pena. Este pobre homem que levanta alto o queixo com seu cargo de inquisidor-mor do Tribunal, vivia em um estado de total fanatismo e ignorância que mesmo chamando-se de representante divino, sequer entendia o amor que procedia de Deus.

Era na verdade, uma grande e triste tragédia. O mundo tornara-se um grande desastre, e talvez neste mundo ele não coubesse mais mesmo.

Era injusto estar ali, mas esta era uma época de escuridão.

Já contara os seis dias pela luz do sol e da lua que se sucederam em sua diminuta janela. Era manhã do dia do auto de fé, e estava preparado para o que o esperava. Ao menos imaginava que estava.

Logo cedo trouxeram-lhe uma refeição e assim que terminou, chegaram os guardas, um de cada lado da porta de sua cela. Franz Gilbert, aceitando finalmente seu fim, levantou-se calmamente e, com certa cerimônia, atravessou a porta de seu último confinamento e, ao lado dos guardas, foi conduzido até o pátio externo da prisão, onde outros condenados como ele aguardavam. Mas antes de chegar ao pátio, passaram por uma saleta onde foi despojado de suas vestes simples e vestido com uma túnica comprida onde estava pintado o símbolo de uma chama, com sua ponta flamejante para cima. Assim vestido, foi encaminhado finalmente ao pátio onde outros, com as mesmas roupas que ele, aguardavam tensos e pesarosos de seus destinos.

Permaneceram neste local, todos absolutamente em silêncio, cada um com seu próprio pesar, durante cerca de meia hora, quando subitamente surgiu outra turba de condenados vindos de um portão nos fundos o pátio, cercados de guardas sendo escorraçados e maltratados por cruéis carrascos. Entre os carrascos, pôde discernir um em especial, aquele sorriso sádico de quem está se deliciando com a dor que infringe a outrem, uma imagem bem familiar, que já esteve anexa à sua mente. Era seu pequeno e velho algoz de outrora.

Este grupo de malfadados, no entanto, se diferia do grupo de Franz pelas vestimentas. Usavam uma túnica com uma chama assim como eles, porém outras pinturas também estavam presentes: cobras, lobos, cães e demônios estavam desenhados de forma funesta e ameaçadora em suas vestes. Ele sabia quem eram estes, eram os hereges, os não perdoados, ou por não aceitarem o perdão, ou por não merecerem o perdão. De qualquer forma, provavelmente a morte deles seria pior do que a que esperava Franz.

Assim que chegaram perto do primeiro grupo, pararam. Os dois grupos não poderiam se misturar, teriam destino e apreciações diferentes. O carrasco baixinho, que foi companhia de Franz durante longos e escuros momentos em sua cela de expiação, percebeu a presença deste no grupo dos perdoados e sorriu para ele com aquela dentição podre e imperfeita. Seus olhos brilhavam com a dor que estava causando nos outros, e talvez tenha lembrado dos doces momentos em que saboreou o sofrimento de Franz, enquanto seu companheiro grande e bruto o chicoteava incessantemente.

Mas Franz no fim sentiu pena daquela pobre alma. Sua única incumbência neste mundo é ser desumano e a única alegria de sua vida é o sofrimento dos outros. Deve ser uma vida muito desgraçada afinal. Se Cristo estivesse aqui, por certo recomendaria o perdão a esta miserável criatura e a oração por sua alma, para que conseguisse encontrar a salvação.

Em meio à sua comiseração, foi instigado a caminhar. A procissão dos condenados seguia seu caminho em direção ao ato final de tantas vidas miseráveis. À frente, iam alguns poucos pecadores que haviam sido perdoados e que não seriam punidos com a morte. Provavelmente seus pecados não eram de tal monta que os levassem à perdição eterna, e então, perdoados, seguiam apenas uma vigília final como ato de contrição pelos erros que cometeram. Também possuíam vestes especiais com o desenho da chama, porém com a ponta flamejante para baixo, já que não seriam queimados. A punição destes era apenas serem expostos à vergonha perante os seus conterrâneos, mas ao menos lhes seria poupada a vida.

Uma fileira de soldados separava o primeiro grupo, das chamas invertidas, do grupo de Franz, mais numeroso, que vinha logo atrás. E em seguida, logo após outra fileira um pouco mais encorpada de soldados, caminhavam os amaldiçoados.

O cortejo seguia lentamente e ainda não havia deixado os muros da prisão, que era também a sede do poder secular na cidade. Assim que se aproximavam do portão, que era aberto para uma rua larga que conduzia até a praça central, Franz pôde ouvir os gritos do povo, que esperava ansioso por aqueles pecadores, desejosos de poder descontar em cada um deles toda a raiva e ferocidade que tanto ocultavam em suas vidas. Esse era o momento mais esperado por toda a população, era o circo que as mantinham felizes e condicionadas ao controle que sofriam. E eles adoravam isso.

O primeiro grupo enfim saiu pelo portão e foi recebido com vaias e xingamentos, e assim que o segundo grupo, aquele ao qual Franz pertencia, atravessou os portões, começaram as cusparadas sobre os condenados que seguiam sua marcha lentamente, com os passos controlados pelos soldados. Era uma sensação aterrorizante de intimidação pelo ódio, expressado pela multidão que se aglomerava nos dois lados da rua. Gritos de raiva, esconjurações, xingamentos e todo o tipo de cólera eram exalados pela turba que os rodeava.

Franz seguia obstinado, sofria por algo do qual não tinha culpa, se havia sido condenado a imolar seu corpo por pecados que não eram seus, então o faria de cabeça erguida. Que Deus o ajudasse a manter-se firme. Conseguiu distinguir entre os rostos raivosos que o insultavam, muitos amigos e colegas, pessoas que passaram toda a vida ao seu lado e o conheciam muito bem para saber que não merecia o que lhe haviam imputado. Era curioso o fato de que nenhum deles o olhava nos olhos, sempre que o reconheciam viravam o rosto e direcionavam sua cólera a outro condenado, como se sentissem constrangidos pelo que estavam fazendo perante ele. Mesmo assim, recebeu muitas cusparadas, principalmente no rosto, que manteve impassível, e ouviu as piores maledicências que se pode imaginar durante todo o seu caminho até a praça central.

No entanto, o que o terceiro grupo sofreu foi ainda pior. Tão logo irromperam pelos portões, uma chuva de verduras e frutas estragadas, ovos podres, esterco de animais e inclusive fezes humanas os atingiram. Os xingamentos foram ainda mais exaltados e mais ferozes. Eram tratados como o excremento do mundo, e fizeram a alegria da multidão durante todo o percurso até seu destino final e fatal. Iriam morrer em breve, porém sofreriam muito ainda até que o fim chegasse.

Por quinhentos metros andaram, lentamente compassados pelos soldados, e por cerca de uma hora sofreram todos os horrores que os seres humanos podem infringir a outros, muitos já se encontravam cobertos de imundície muito antes de chegarem à praça central. Era uma cena repulsiva e hedionda.

Assim que chegaram à praça central, onde seria realizado o auto de fé organizado pelo estado com a ajuda e apoio do Tribunal do Santo Ofício, cada grupo foi conduzido para uma área específica. O primeiro grupo ficou em um local cercado de cordas em frente ao altar onde seria realizado a missa. O grupo de Franz ficou em um local logo ao lado do primeiro, próximo da área onde estavam cravados vários palanques com madeiras e mato seco dispostos logo abaixo, o que indicava que provavelmente receberiam os condenados à morte.

O terceiro grupo, foi direcionado para uma área cercada de soldados, que visavam não prender os condenados, mas sim protege-los da turba enfurecida. Esta área ficava ao lado de um grande palco, com seu piso elevado acima das cabeças de todos. Algo seria apresentado ali, e não deveria ser nada bom.

E então o espetáculo começou. Do altar no meio da praça o inquisidor-mor iniciou a missa com o sinal da cruz:

– In nómine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amén (Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito. Amém) – e depois de uma pausa eminente – Introibo ad altare Dei (Subirei ao altar de Deus).

– Ad Deum qui lætificat juventutem meam (Do Deus que alegra a minha juventude) – respondeu o padre assistente.

Após o salmo, na oração penitencial o inquisidor-mor rezou seu confiteor e esperou que o padre assistente também rezasse o seu confiteor, e então virou-se para os condenados e rezou a absolvição, com uma dura expressão na face:

– Indulgentiam absolutionem, et remissionem peccatorum nostrorum, tribuat nobis omnipotens et misericors Dominus (Indulgência, absolvição, e remissão dos nossos pecados, conceda-nos o Senhor onipotente e misericordioso).

“Oh, como é misericordioso o inquisidor-mor, pena que sua absolvição não os salvem da morte certa”, pensou Franz.

Seguiu-se a liturgia conforme o Ordinário da Missa. Com muita suntuosidade o celebrante leu o Evangelho e no momento da homilia voltou-se para o povo e fez um discurso inflamado sobre o ato de misericórdia divina que estavam realizando neste dia, sobre como era importante realizar o trabalho de Deus, purificando a humanidade e expurgando a heresia.

– Filhinhos, estes que aqui estão viviam uma vida de pecado, não amavam o verdadeiro Deus, proclamavam blasfêmias e heresias contra a Santa Madre Igreja, e renegavam o próprio Senhor Jesus Cristo em seus rituais macabros com a participação do demônio em pessoa. Suas culpas foram provadas pelo Tribunal do Santo Ofício, esta mão direita de Deus que veio para destruir o mal que se encontra entranhado entre o rebanho de Nosso Senhor, e muitos confessaram seus pecados, assumiram suas maldades e vicissitudes e receberam o perdão de seus pecados – olhou com compaixão para os dois primeiros grupos de pecadores e sorriu. Então fechou sua expressão e virando-se para o grupo dos amaldiçoados esbravejou – outros, no entanto, não aceitaram o perdão de Deus, suas almas estão de tal modo arruinadas pelo pecado, suas vidas estão entregues de tal forma ao demônio, que a misericórdia divina não chega até suas carcaças pútridas. Estes são os condenados ao fogo eterno, viverão suas eternidades no inferno, onde suas almas serão queimadas, rasgadas, pisoteadas e destruídas, onde a danação não terá fim e seu sofrimento será tudo o que terão para sempre…

Disse tudo isso com ódio no olhar, mas também com uma expressão de tristeza por não ter conseguido salvar estes pobres coitados. Parecia realmente sincera sua comiseração pelo destino destes condenados, aos quais ele não conseguira trazer de volta à Deus. Mas não havia saída, era o caminho que haviam escolhido.

O inquisidor-mor então fez silêncio, enquanto a turba se inflamava contra os amaldiçoados, novamente levantando um coro de xingamentos e obscenidades. Franz ficou abismado ao ver tão apresentação dos fiéis durante a Santa Missa, isso não podia ser correto, não podia ser sensato.

– Por isso hoje teremos este auto de fé – continuou o celebrante – organizado pelo poder do estado, onde toda a heresia será punida. Os condenados que aceitaram o perdão de Deus serão purgados de seus males pelo fogo que queimará sua carne, que é sinal e habitação de sua promiscuidade e perversão, para que suas almas estejam livres para adentrar, então purificados, o reino dos céus. Os amaldiçoados, aos quais a misericórdia de Deus não alcançou, serão destruídos, esfacelados e enfim exterminados no fogo que será sua habitação para a eternidade.

Novamente o povo se exaltou contra os pobres condenados, sem piedade, a despeito do fim desonroso e terrível que os esperava. O inquisidor-mor então, com um gesto de mão, pediu para que o povo se acalmasse.

– Vamos rezar pela redenção de todo o mal, de todos os hereges, de toda a promiscuidade e blasfêmia, para que a verdade de Deus e de sua Santa Igreja se espalhe por toda a terra e sua glória seja eterna. Rezemos também, filhinhos, para que o Tribunal do Santo Ofício, e seus inquisidores, continuem o trabalho de Deus com coragem e determinação.

Então todo o povo se acalmou e a missa continuou com o Credo e se estendeu sem mais incidentes até seu final. Ao terminar a celebração, as atenções voltaram-se para o palco elevado, pois agora o auto de fé seria responsabilidade do poder secular e seus soldados. Nele seriam torturados todos os amaldiçoados, aqueles que não mereceram o perdão de Deus e que não foram salvos. O seu martírio final seria um sacrifício à Deus por toda a sua iniquidade e pecado, já que negaram rejeitar seu maléfico mestre.

Uma fila de carrascos se fez no fundo do palco e, um a um, os pecadores do terceiro grupo, dos amaldiçoados, foram conduzidos a torturas terríveis, algumas destas que os levaram à morte. Membros sendo dilacerados pela força de cavalos, os mais diversos tipos de empalamentos, chicotadas, unhas arrancadas, os mais cruéis e sádicos processos de tortura foram aplicados naquela tarde. Ao final, com todos os pecadores com seus corpos em estados lastimáveis, aqueles que continuavam vivos foram dispostos em gaiolas, baixas e apertadas, onde mal cabiam seus corpos e foram pendurados sobre o palco, para que a morte não viesse lhes trazer alívio tão cedo. Ficariam pendurados em gaiolas até a morte por inanição, por alguma infecção, ou pelos seus ferimentos. Era uma cena completamente repulsiva, mas que, no entanto, não afetava a população, que voltou a cuspir, ofender e espancar os pobres diabos, como se já não tivessem sofrido o suficiente.

Agora as atenções estavam voltadas para a área dos palanques, onde os pecadores que haviam recebido a graça do perdão iriam cumprir suas condenações e purificar suas almas. Muitos que ali estavam com Franz, realmente acreditavam que mereciam sua punição, e que a única maneira de entrarem no reino dos céus era expurgando o mal que tomou conta de seus corpos, aceitavam a fogueira como sua expiação por tudo o que fizeram, mesmo não tendo feito nada. O processo anterior de tortura lhes haviam tirado toda a consciência. Enquanto eram presos nos palanques de madeira, rezavam baixinho pedindo por perdão. Franz aceitava morrer, mas pelo fato de que não entendia mais esse mundo, não conseguia viver em tamanha barbárie, e se aquilo é que era a verdade para todos, então ele não poderia mais fazer parte disso.

Apesar do auto de fé estar sendo conduzido pelo estado, o inquisidor-mor participava a todo instante inflamando o povo contra os condenados, e pregando sua verdade sobre os pecados do mundo e o poder da Santa Igreja. E agora, com todos os pecadores do segundo grupo presos aos palanques, entre eles Franz, ele começou seu discurso:

– Estes pecadores, filhinhos, se arrependeram de seus atos de heresia, de suas vicissitudes, do mal que fizeram contra Deus e contra a Igreja. Pediram a misericórdia de Deus pelas orgias que participaram durante os rituais em que tinham o próprio demônio como companhia. Suplicaram perdão pelos pecados que cometeram contra suas famílias, seus amigos, seus parentes, pelas mentiras que espalharam contra a Santa Madre Igreja. E vejam, diante do Tribunal do Santo Ofício, a mão direita de Deus sobre os homens, eles foram perdoados, foram salvos de suas vidas de perversidade e iniquidade. Através deste Tribunal, a piedade divina tocou suas almas e as purificou. No entanto, filhinhos, seus corpos estão poluídos, corrompidos e manchados pela imundície de seus atos. Serão agora atirados ao fogo, mas não é Deus que os matará, e sim o demônio que os matou durante todos os seus blasfemos dias de heresias e pecado. Vejam a maravilha do amor de Deus, que queimará seus corpos para que suas almas sejam libertadas do pecado, do mal, da imundície, e então poderão subir até o reino dos céus!

O povo escutava fascinado o discurso do padre. A cada sentença, murmúrios de aprovação circulavam entre todos. Aquele mundo realmente não tinha mais o menor sentido, eram tempos de escuridão, época de trevas, onde a luz de Deus fora convertida em puro breu.

Preso no alto de seu palanque, Franz tinha uma visão privilegiada da multidão que se reunia ao redor dos condenados. Pode ver seus amigos, sua família, filhos, esposa, todos os que o entregaram e agora estavam assistindo sua morte como se fosse um indigente qualquer, todos os que compartilharam seus dias com ele, viveram, foram muito felizes e pródigos. Estavam ali para apreciar sua punição sim, mas percebia no rosto de cada um, nos pequenos instantes em que tinham coragem de encará-lo, que sentiam profundo constrangimento no que ocorria a ele. Sentiu pena pelos que ficariam a viver esse mundo entregue ao ódio. O padre ainda falava palavras de estímulo à humilde submissão que o povo ao poder do Santo Ofício, quando Franz não conseguiu mais se conter:

– Eu desejo fazer minha última declaração – gritou alto para que todos os que se encontravam ali ouvissem – como condenado, é meu direito.

O inquisidor-mor, assustado com a interrupção e intimidado pela convicção contida nestas palavras, ficou subitamente em silêncio, sentimento partilhado por toda a multidão, o que permitiu à Franz continuar seu derradeiro discurso.

– Meu nome é Franz Gilbert, e vejo aqui muitos rostos que me conhecem de minha vida de outrora. Quem me conhece, sabe que não tenho culpa pelo que sou acusado – o inquisidor fez menção de se pronunciar em contrário, mas Franz emendou logo em seguida, calando-o – mas não tenho a menor intenção de questionar a sentença emitida por este Tribunal. Aceito sim minha morte, pois não consigo mais me encaixar neste mundo, onde o ódio e a violência tornaram-se armas divinas. O espetáculo que vimos aqui hoje, travestido de justiça divina, não tem nada de divino, não há Deus aqui, somente homens que desejam manter seu poder vivo. Não desejo me salvar da fogueira com minhas palavras, bem a mereço, por não partilhar desta mesma visão de mundo. Até ansio por ela. Esta cidade, desde quando era apenas uma vila, sempre foi muito feliz, pródiga, mesmo em toda a sua simplicidade, um lugar maravilhoso de se viver, onde Deus caminhava conosco durante todos os momentos. Mas uma nuvem negra chegou e nos cobriu, e Deus não mais toca nossas vidas – um olhar sincero e duro fez com que o inquisidor não questionasse nenhuma das afirmações – mas o que quero dizer, meus amigos, minha família, minha querida Marieta – e olhou com carinho para sua esposa, a despeito de tudo o que ela fizera para que ele estivesse ali, e pôde ver a primeira de muitas lágrimas que cairiam de seus olhos – o que quero que pensem, é o que Jesus Cristo pensaria se visse a sua Igreja, o seu povo, fazendo o que foi feito aqui hoje, e tudo isso em seu nome. Ele, Jesus, que nos deixou apenas um mandamento antes de subir aos céus, para junto de Deus Pai, ele disse “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Pensem na decepção de Deus ao ver no que nos transformamos. A Igreja é santa sim, o catolicismo é santo, mas o que vejo aqui hoje não é o legado que Cristo nos deixou. Eu vou ser queimado hoje, pela sentença que recebi deste tribunal, mas eu digo, com todas as forças de minha alma, que meu coração está com Deus. Se for possível, que não se derrame mais sangue inocente. Ao menos deste pecado eu estou limpo.

Ao sinal do inquisidor-mor, os soldados, que estavam parados em silêncio contemplativo perante as palavras sinceras de Franz, subitamente aceleraram o processo de queima da palha e madeira abaixo dele, com a intenção de abafar o que este dizia. Ao ver este ardil, Franz olhou para a multidão, olhou para os soldados e enfim olhou para o inquisidor-mor, e disse, levantando os olhos aos céus enquanto uma lágrima descia por sua face:

– Meu Senhor, meu Deus, meu Pai, perdoai-lhes pois não sabem o que fazem.

A esta altura as chamas já estavam altas e tocavam sua pele, mas a dor que o rasgava não conseguia ser maior do que a tristeza que tomava todo o seu coração, então não gritou, apenas chorou, lágrimas de decepção.

Assim que as chamas cessaram, todos os corpos estavam carbonizados, como era de se esperar, porém algo inesperado, fantástico e profundamente inquietante se via no palanque onde Franz fora morto: Todos os seus membros estavam queimados, com exceção de sua caixa torácica, que mantinha-se intacta. Vários murmúrios tomaram conta da multidão repetindo as palavras do falecido: “… meu coração está com Deus.”

Todos enfim compreendiam que aquele, assim como Jesus Cristo, fora condenado e morto como inocente, e suas palavras cravaram-se fundo no coração e na alma dos habitantes de toda a cidade. As testemunhas que ouviram seu discurso final, compreenderam a situação em que se encontravam e se arrependeram de todo o ódio que sentiram e propagaram durante toda a aquela cerimônia. Subitamente todos abaixaram suas cabeças e dirigiram à suas casas em silêncio, sentindo o peso do pecado que cometeram neste dia.

O inquisidor-mor sentiu-se profundamente confuso. Toda a sua convicção no bem que estava fazendo subitamente estava sendo questionada e se desfazia como fumaça ao vento. Também ele chorou.

Com o passar de poucos dias, o Tribunal do Santo Ofício sentiu que perdera completamente o apoio da população daquela antes próspera cidade e, com o discurso de que já haviam expurgado todo o mal que lá havia, deixaram o vilarejo e se dirigiram para outra cidade, para outro povoado, estender suas garras negras sobre outros pecadores.

Com grande alegria, o povo da cidade acolheu novamente o padre Martin em sua comunidade, e aos poucos o amor, ao qual Franz se referira em sua declaração, voltou a unir todos os moradores que lá residiam.

Dizem que o inquisidor-mor decidiu, após algum tempo de reflexão, abandonar seu trabalho no Santo Ofício, e se dedicou a cuidar de enfermos em uma comunidade que estava assolada pela peste negra. Não salvava mais punindo com a morte, mas lutando pela vida.

As trevas viraram luz novamente, um novo dia de paz e amor nasceu. Enfim um auto de fé cumpriu um propósito.

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