Era um dia muito importante para o futuro do time.

Após vários jogos juntos, muitas vitórias, várias derrotas e alguns jogos que não chegaram ao fim devido à vários motivos (geralmente brigas entre os jogadores adversários ou então invasão do campinho pelos garotos mais velhos), finalmente estavam reunidos para definir o nome do time e o símbolo que iriam utilizar.

A sala de reuniões era a garagem da casa do Filipe e, sentados em banquinhos ao redor de uma mesinha improvisada com tijolos e um tampo de madeira, estavam lá todos os sete titulares: Matheus era o mais novo de todos, no entanto o mais inteligente, e também era o mais empolgado com essa reunião já que a ideia de criar uma identidade para o time havia sido dele, que achava que isso iria impor mais respeito perante os adversários; Tiago era mais velho que Matheus e era tido por todos como o líder da turma, era esperto, boa pinta, e era o que tinha mais jeito com as garotas, elas sempre estavam caidinhas por ele, mas era também um cara muito gente fina e geralmente era quem bolava todas as aventuras e diversões; Bruno tinha a mesma idade de Tiago e era o que tinha mais dificuldade de participar dos eventos da turma, pois trabalhava durante boa parte do dia com seu pai na panificadora da família, e era um dos principais seguidores de Tiago, sempre seguia cegamente o que ele dizia, o que era até bom, pois eram parceiros no ataque do time; Danilo era um cara muito bacana e tinha ideias geniais que nunca davam certo, e também era baixinho para um goleiro, mas compensava essa dificuldade com muita agilidade; Willian no entanto era o mais alto da turma e também o mais velho, era magricelo e feioso e nada esperto para sua idade, no entanto não tinha maldade no coração, era bastante inocente em suas atitudes; Cleber era da idade de Matheus, mais novo que os outros, mas era o mais malandro, sempre metido em encrenca; e por fim o anfitrião do dia, Filipe, era o zagueirão titular, tinha a idade dos mais velhos e era grande, forte e pouco inteligente, e assim como Bruno era o um dos mais fiéis seguidores de Tiago.

O time era este: no gol Danilo, na zaga os grandalhões Willian e Filipe, na meia os mais novos, Matheus e Cleber, e no ataque a dupla Tiago e Bruno. Seis jogadores de linha e um goleiro. O time era bom, o único problema era quando algum titular faltava, o que ocorria com alguma frequência, e tinha que ser substituído por um outro perna de pau ou por algum dos mais novos, que não passavam de crianças.

– Bom, pessoal, hoje estamos aqui reunidos para escolher um nome para o time – começou Matheus com exagerada formalidade, o que fez com que todos, começando por Tiago caíssem na gargalhada – o que foi? Caras, é sério, o assunto é importante…

– Tá bom Matheus, desculpa, é que não precisava falar igual a reunião de trabalho né? – Tiago disse amigavelmente.

– Sim senhor – disse ironicamente Filipe, retesando o corpo para reforçar a formalidade exagerada.

Todos ainda riam quando Tiago disse mais sério: – Tá bom galera, vamos ouvir o nosso diretor, ele disse que o assunto é sério.

As risadas reduziram progressivamente até que todos finalmente estavam prestando atenção. Matheus ainda indignado com a sacanagem, esperou mais um pouco para reforçar a necessidade da atenção de todos e resolveu dispensar a formalidade desta vez:

– Então galera, vocês pensaram em algum nome? – disse.

– Ah, sei lá, você que é o cara das ideias – disse Bruno.

– O que vocês acham de Independente Futebol Clube? – Cleber gostava do São Paulo, que tinha sido campeão mundial a pouco tempo e tirou o nome da torcida organizada do time paulista. Ninguém gostou.

– Ah cara, pare com isso, nada a ver, não somos paulistas… – Tiago reprovou a ideia.

– E se a gente colocasse Mamonas F.C.? Ia ser uma homenagem massa! – os Mamonas Assassinas já eram uma banda famosa na época, e todos da turma gostavam muito, mas Bruno era um fã ardoroso, muito acima dos demais.

– Que mamonas nada, se for pra fazer homenagem, que seja pro maior de todos os tempos, vamos colocar Mclaren F.C, o Senna é foda. – se Bruno era fã dos Mamonas, Danilo era ainda mais fã do Senna, que na época era o maior orgulho dos brasileiros, e a principal atração das manhãs de domingo no país todo.

– Não gostei de nada disso, não tem nada a ver com a gente… – Tiago estava pensativo e então olhou para Matheus, que estava quieto e frustrado com a avalanche de más ideias – o que você acha, chefe?

– Acho ridículo dar esses nomes pro nosso time. Precisa ser algo que identifique a gente, que chame a atenção pra nós.

– Que tal “Os Invencíveis”? – essa grande ideia partiu de Danilo, e todos ficaram olhando para ele com incredulidade.

– Que nome idiota… – disse Filipe sem a menor fineza.

– Dê uma ideia melhor então, senhor da razão! – Danilo retrucou.

– Não é cara – Tiago amenizou a disputa entre os dois – mas é que esse nome iria virar piada na primeira derrota, entende? Tipo, vão ficar falando “Ué, não eram invencíveis?”.

– É verdade, não foi uma boa ideia – Danilo abaixou a cabeça.

Todos ficaram quietos, sem muitas opções de nome, sem criatividade. E foi então que o único que não havia pronunciado uma palavra até o momento na discussão, Willian, finalmente falou:

– E se fosse Rua 6 F.C.?

A rua seis era onde a maioria dos integrantes do time morava, era também onde todos sempre se encontravam para conversar, se divertir e conviver, era o centro da vida da turma. Fazia sentido, era a referência mais válida e também a mais simples. O time inteiro ficou em silêncio por um instante, digerindo a ideia e então Matheus disse, com o semblante iluminado:

– Perfeito. É isso mesmo que a gente precisava, simples e direto.  Eu achei demais!

Tiago, que sempre confiava fielmente na opinião de Matheus para assuntos técnicos, já que ele era o mais inteligente da turma, acatou também a ideia, e com ele, todos aceitaram o nome.

– Então tá decidido, Rua 6 Futebol Clube. Ficou massa. – decretou Matheus – agora a gente precisa definir qual o escudo que gente quer usar. Eu trouxe aqui alguns modelos que fiz ontem à noite, pra escolhermos. O que vocês acham?

Matheus espalhou algumas páginas sobre a mesa improvisada, cada uma com um símbolo diferente: um em forma de círculo, com o nome ao redor e faixas coloridas no meio, outro em forma de escudo, largo em cima e afinando até se tornar pontudo embaixo, outro em um formato quadrado e um quarto com o formato do escudo do Barcelona, muito bem trabalhado e cheio de detalhes diferenciados. Foi nítido o fascínio de todos por este último, até porque também era a opção de Matheus desde o início e por isso mesmo ele havia caprichado nele mais que nos outros.

– Esse do Barça ficou demais hein… – Tiago disse finalmente e todos concordaram imediatamente, o que deixou Matheus muito empolgado.

– Então agora temos que escolher as cores do time.

Bom, nesse momento não haveria muita concordância de qualquer forma, e por um motivo bem óbvio: metade do time torcia para o Atlético e a outra metade torcia para o Coritiba, a única exceção era Willian, que torcia para o Paraná Clube. Cada um queria as cores do seu time, e não aceitava as cores do rival, e a discussão que se tornou acalorada em determinado momento, foi encerrada sem qualquer decisão, pelo bem da união da turma. Mas então Matheus teve uma ideia conciliadora:

– Então vamos colocar as cores vermelha, verde e azul, pronto, todo mundo fica feliz e está resolvido.

– Putz, vai ficar uma merda – disse Bruno sinceramente.

– Não vai não – disse Tiago para finalizar o assunto – vai ficar bom, o símbolo do Barça já tem um monte de cores mesmo, o nosso vai ficar bacana…

– É, acho que vai mesmo – disse Filipe.

– E pelo menos assim resolve o problema – disse Danilo.

– Então tá resolvido. Deixa comigo que vou providenciar esse símbolo e vocês vão ver como vai ficar demais! – Matheus decretou ainda mais empolgado.

Apesar de todo o entusiasmo de Matheus, uma pergunta surgiu no meio de todos e foi pronunciada por Bruno:

– Tá, mas vai colocar esse símbolo aonde?

– Ah, eu já pensei em tudo. Minha irmã trabalha para um candidato a vereador, e já cantei ela para pedir pra ele um jogo de uniformes de futebol, e ela me disse que acha que consegue, só talvez a gente precise fazer alguns trabalhos pra ele nessa eleição, mas nada demais. O que vocês acham?

– Por um jogo de uniformes eu topo. Não deve ser nada demais mesmo. – falou Danilo.

– E pode ser divertido. – disse Willian.

– Eu não posso, tenho que trabalhar com meu pai. – Bruno retrucou.

– E quem sabe a gente consegue tirar uma graninha também. – elaborou Cleber.

– Então tá, veja lá com ela o que a gente precisa fazer, e daí a gente se organiza e faz. Um jogo de uniformes é? Isso vai ser demais, nenhum outro time tem isso.

Os olhos de todos na turma brilharam com a exclusividade que teriam sobre todos os adversários, seriam um time organizado e forte, todos os temeriam.

– Parabéns chefe – disse Tiago voltando-se pra Matheus – você teve uma ótima ideia!

– Valeu – Matheus disse, ao mesmo tempo orgulhoso de si e encabulado com o reconhecimento – e tem mais uma coisa: eu comprei um caderno, onde vou anotar todos os nossos jogos, com a data, o adversário, o placar, o nome de todos os que fizeram gols e tudo o que for relativo ao jogo, pra gente ter um banco de dados do nosso time.

– Cara, assim nós vamos ter que te eleger o presidente do clube, o que acham galera? – Tiago propôs.

E assim todos aplaudiram, elegendo o novo presidente, e para comemorar a vitória, todos pularam sobre Matheus, fazendo bolinho com ele com muitos gritos e risadas.

No exato momento em que o bolinho estava sendo desfeito, a mãe de Filipe chegou com refrescos e salgadinhos para todos, o que foi muito bem-vindo, já que debates estressantes como esses costumam cansar e davam muita fome. O dia também estava extremamente quente, era o início do verão em Curitiba, mas já parecia o inferno na terra. No entanto, o calor que sentiam podia não vir diretamente do inferno, mas o que nenhum integrante do Rua 6 Futebol Clube poderia imaginar era que, até o final daquele verão, um dos mais quentes e mais reveladores de suas vidas, a palavra inferno teria novo significado para cada um deles.

Mas por hora, a fundação do Rua 6 Futebol Clube estava oficializada, e seu primeiro presidente estava orgulhoso e eufórico. Curitiba ardia em suas peles, e a grande amizade que sentiam um pelo outro, ardia em seus corações, o que era um grande trunfo que tinham, mesmo ainda sem saber.

2 comentários sobre “TURMA DA RUA 6 -UMA IMPORTANTE REUNIÃO

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