Acordar cedo nunca é bom, e é pior ainda quando você é um adolescente e o motivo do despertar é uma manhã inteira de aulas. Era quarta-feira, e isso queria dizer que o final de semana ainda estava longe, e pior, era dia de aula germinada de matemática. Era começo de ano ainda, mas as primeiras aulas com a professora Jacira não foram nada agradáveis e esse ano tudo indicava que seria necessário mais do que o esforço normal do quarto bimestre para passar nessa matéria.

Com estes pensamentos deprimindo seu estado de espírito, Bruno olhou para o espelho do banheiro logo após lavar o rosto e enxuga-lo com a toalha, pensando no quanto estava cansado hoje. É claro que isso não era desculpa para ficar em casa e curtir um pouco mais o seu sono, já tentara isso certa vez, e tudo o que recebeu de sua mãe foi um “Larga a mão de ser preguiçoso piá!” em um volume tão alto que deve ter acordado a casa inteira, talvez o quarteirão inteiro. Mas esta desculpa não era de todo mentira, na noite anterior havia ajudado o pai até tarde descarregando vários fardos de farinha na panificadora e foi dormir quebrado. Mas isso ainda não era tudo, hoje teria que ajudar novamente assim que chegasse do colégio, seria preciso organizar todo o estoque e seu pai era um homem das antigas, que acreditava que o filho tem que trabalhar desde cedo para não se tornar um vagabundo.

Um sentimento de resignação tomou conta de Bruno, aquela afinal era a sua vida, e não tinha do que reclamar, tinha uma vida muito boa. O único problema era que chegaria atrasado para o futebol com a turma hoje.

Baixou a cabeça e respirou fundo.

– Vamos lá então, fazer o que? – disse para o reflexo que o encarava no espelho e pegou a escova e a pasta de dentes.

A casa de Bruno estava em uma fase eterna de construção. Seu pai começara a construir um sobrado grande, de dois andares, mas como a grana andava apertada a construção caminhava devagar. A casa antiga, que ficava nos fundos do terreno continuava em pé e era onde estavam concentrados todos os ambientes comuns da casa e também o quarto de seu irmão mais novo. Os quartos dos seus pais, o seu e o da sua irmã já estavam prontos na construção. O sobrado, que ainda estava em sua maior parte apenas no esqueleto da obra, cobria o lado esquerdo do terreno, deixando apenas um espaço comprido no lado esquerdo onde seria a garagem e que ia do portão da frente à porta de entrada da casa antiga.

Saiu do banheiro, voltou para o quarto, tropeçou no videogame Mega Drive, que era o top da época, resmungou um xingamento para ninguém específico e entrou na roupa do colégio. Após tomar um rápido café e receber um beijo na testa de sua mãe, Bruno saiu pela porta e caminhou pela garagem até o portão onde Danilo já o aguardava para irem para o colégio. A parte da frente do sobrado seria construído para abrigar uma sala comercial, onde seria instalada a nova panificadora do pai de Bruno. Era importante, pois assim deixariam de pagar aluguel, mas estava sendo deixada por último e, portanto, era uma parte da construção de aspecto ainda mais desolador, no entanto Bruno já estava bem acostumado com esse ambiente.

– Que cara de maricas é essa? Tá cansadinha? – Danilo provocou.

– Vai se fuder. Trabalhei até tarde ontem carregando um monte de fardo de farinha, tô que não me aguento.

Saíram caminhando rua abaixo.

– Putz… e hoje, vai trabalhar também?

– Vou. Até uma três da tarde com certeza.

– Poxa cara, temos que treinar, você sabe, o jogo contra o time do Amendoim é domingo agora, e você e o Tiago tem que estar bem entrosados. Não podemos perder esse jogo, vale refrigerante…

– Eu sei, mas o que eu posso fazer, meu pai é foda, não tem como fugir. É a minha vida piá…

– Tá certo, e você nem pode reclamar, tem tudo o que quer e teu pai é muito gente boa, apesar de tudo. – Danilo pensou por um tempo em seu padrasto, que não era lá um bom exemplo de pessoa. – Você tem mais é que agradecer pela vida que tem. Até videogame de última geração tem. Falando nisso, quando é que amos jogar Sonic denovo?

– Ué, quando você quiser, é só vir aqui em casa.

– Sábado de manhã então.

– Acordar cedo no sábado?

– Ah cara, é pra jogar videogame e não pra estudar, vale a pena. – sorriu.

– Bom, pensando assim é verdade. Mas domingo já vamos ter que acordar cedo pro jogo…

– Deixa de ser maricas piá…

Riram juntos.

Bruno e Danilo estudavam juntos em uma escola pública diferente do restante da turma. Matheus, Tiago e William estudavam em uma outra escola, também pública, do outro lado do bairro e Filipe e Cleber estudavam em escolas particulares.

Os dois amigos caminharam animadamente descendo a rua e viraram na avenida principal. Assim que contornaram a esquina, uma imagem trouxe o silêncio à tona. Dois componentes na paisagem chamaram a atenção imediatamente, já que o incidente estava ainda há cerca de 4 quadras de distância: primeiro a fumaça que subia preta ao céu, depois, em meio à esta última, os giroflex de dois carros de polícia.

O novo acontecimento trouxe excitação à manhã desanimada deles, e então os dois garotos apertaram o passo e até chegaram a correr para chegar mais rápido onde tudo estava acontecendo. E quando estavam chegando perto da origem da fumaça foi que sentiram um cheiro horrível de carne queimada, o que fez com que puxassem a camisa do colégio até seus narizes, mas não os detiveram. Continuaram caminhando mais devagar na direção dos carros de polícia, com a curiosidade mordiscando a pele.

Assim que puderam perceber o que estava liberando a fumaça, levaram um susto e Danilo sentiu-se enjoado. Um carro totalmente queimado, restando apenas a carcaça de metal e pedaços de vidro que se espedaçaram para todos os lados. Dentro do veículo podia-se ver nitidamente quatro corpos completamente carbonizados, sentados e praticamente fundidos ao que um dia foram os bancos do carro.

Muitos curiosos se acumulavam do outro lado da fumaça, próximo das viaturas policiais, mas ninguém tinha ideia do que estava acontecendo, nem tampouco de quem eram as vítimas.

Os dois se esgueiraram entre o aglomerado de pessoas para chegar mais perto de onde os policiais estavam conversando com os moradores. Ali o cheiro era mais ameno, já que o vento levava a fumaça e o odor para o lado de onde os meninos haviam vindo.

– Não há indícios de violência, nem marcas de armas de fogo ou sinais de que as vítimas sentiram qualquer tipo de surpresa ou dor, as expressões dos cadáveres, que apesar de carbonizados foram detalhadamente analisados pela polícia científica, não demonstram medo ou desespero. – Um policial alto e magro falava com propriedade e altivez para uma audiência que ouvia embasbacada. – Não há qualquer configuração de assalto ou roubo. Por fim não há nada que possa nos fazer acreditar que possa ter sido um acidente de carro, visto que não tem qualquer marca na carroceria do veículo, e a posição do mesmo indica que estava estacionado. É uma incógnita o que aconteceu aqui, é um mistério. As vítimas ainda não foram identificadas.

– Mas não se tem ideia do que aconteceu? – perguntou um senhor baixinho, de bengala e com uma barba farta.

O policial olhou para ele com desinteresse, do alto de sua posição de senhor da lei e disse:

– Não temos nenhuma informação concreta até a polícia científica finalizar a análise. Até lá só podemos conjecturar… suicídio coletivo, combustão espontânea? Quem pode saber? Só o que podemos afirmar é que foi uma morte dolorosa, não houve explosão, os corpos queimaram junto com o veículo aos poucos, durante horas, e a opinião da polícia científica é de que eles não morreram antes de pelo menos uns vinte minutos a meia hora de chamas queimando suas peles.

– Então eles deviam estar mortos já, antes de começarem a queimar… – opinou Bruno.

O policial então assustou-se com aquele pequenino dando pitaco em sua investigação, e pensou em ignorá-lo, mas percebeu que toda a plateia havia se intrigado com a proposição do garoto, então obrigou-se a dar uma explicação para todos.

– Não há essa possibilidade. A análise dos cadáveres indica que estavam vivos enquanto eram carbonizados. Essa é uma das poucas certezas que temos até agora neste caso.

Danilo ainda se sentia enjoado, e essa informação o deixou ainda mais horrorizado com tudo o que estava vendo.

– Meu Deus, então eles sofreram muito… que morte mais terrível… – foi o que conseguiu dizer Danilo.

– Não está na hora de garotos estarem em aula não? – o policial disse como ameaça e reprimenda.

Os dois amigos entenderam e se viraram dirigindo-se à escola, que estava a cerca de três quadras dali, mas antes Bruno deu um último olhar para a cena terrível que se descortinava à frente deles. Havia algo muito errado em tudo aquilo e não só pelo que o policial havia dito. O que ele estava sentindo naquele momento era um aperto muito forte no coração, uma sensação de urgência, de algo ameaçador e perigoso, que rondava pelas sombras. Era como se o que acontecera ali não fizesse parte deste mundo, mas sim de uma realidade paralela de horror e medo, como o próprio inferno. Isso era uma certeza que ele tinha em seu âmago, e sabia que era um prenúncio de algo pior ainda a acontecer.

A fumaça preta escurecia o dia, e perturbava também a sua alma. Mas não havia como dizer aquilo, ele nem sabia o que poderia ser efetivamente, mas era algo ruim, era algo maligno e se ele contasse a algum adulto sobre aquilo, diriam que era imaginação de criança.

Mas ele sabia que era real.

E Danilo também sentia isso, Bruno via sem seus olhos.

Um calafrio passou por sua espinha nos milésimos de segundo em que entreolhava pela última vez o carro funesto e seus ocupantes enegrecidos.

“O Mal”. Era isso que pressentia ali.

E isso era muito pior que nos filmes de terror.

2 comentários sobre “TURMA DA RUA 6 – UM CRIME HEDIONDO

    1. Obrigado Leonilo. Esta é uma parte de uma história maior, a história da Turma da Rua 6, que já teve outros dois capítulos e terá ainda muito mais. A história como um todo terá um final bem mais surpreendente, prometo. Grande abraço!

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