Desde criança, ouvi de meu pai as histórias do que acontecera em Bela Vista alguns anos após o final da segunda guerra. Ele era apenas um jovem garoto naquela época, mas foi testemunha ocular de todo o terror que tomou conta desta pequena, mas próspera cidade, onde vivera até muitos anos após casar-se com minha mãe.

Hoje, devido à uma pesquisa de campo para minha tese de doutorado, me vi interessado em aprofundar essa história, que mais parece um conto, uma fantasia de meu pai, pois mesmo após uma extensa procura pela internet, jornais locais e estaduais, relatos da região e qualquer narrativa escrita ou gravada da época, nenhuma citação ou referência ao ocorrido encontrei, e sendo um acontecimento de tamanha proporção, seria muito improvável que não houvessem registros, se realmente houvesse ocorrido. Mas a narrativa de meu pai era tão completa, clara e persuasiva, e ele declamava cada pequeno detalhe da história com tanta paixão e lucidez, que não há como contestar sua veracidade, à qual ele atestou durante toda a sua vida.

Assim sendo, resolvi que a única maneira de encontrar qualquer indício dos eventos que movimentaram minha infância e alimentaram meus sonhos, ou melhor, pesadelos, era visitando pessoalmente a cidade, inquirindo os moradores mais antigos, visitando a biblioteca, a prefeitura, e cada pequeno círculo de pessoas, e assim tomar a dimensão de verdade disso que me fascinou desde tenra idade.

Para que se tenha ideia do tamanho do meu fascínio nesse obscuro assunto, posso dizer que os meus esforços acadêmicos durante toda a minha vida tiveram razão e influência nas histórias de meu pai, nesta loucura coletiva, ou talvez evento sobrenatural, ou ainda manifestação demoníaca, não há como saber qual a origem e motivo para tais eventos encontrarem tal magnitude. Formei-me em psicologia na Universidade Federal, e mantive-me como pesquisador e acadêmico, e agora meu mestrado está vinculado a este mistério, que para mim é como a culminação de todo o meu labor estudantil, o momento mágico ao qual me preparei, conscientemente ou não.

Agora aqui estou, na cidade onde tudo supostamente aconteceu.

Na época do amaldiçoado fenômeno, Bela Vista era uma próspera e florescente cidade, a jóia do sul do estado do Paraná, caminho para o sul do país. Tinha um futuro promissor e seguro, era o ponto para onde toda a economia da região convergia. O progresso destes tempos áureos do Brasil encontrava ali um solo fértil e tudo conspirava para que Bela Vista se transformasse na capital do sul paranaense.

Algo, no entanto, aconteceu. Em poucos anos, a cidade viu seu futuro esfarelar-se, deixou de ser rota do comércio com o sul do país, perdeu seu status de ponto comum para viajantes, se escondeu por entre os matagais que a cercam, viu sua população encolher, seus recursos minguarem, o horizonte de seu amanhã afastar-se.

Algo havia acontecido, que transformou a vida de todos os moradores da cidade. Transformação tamanha, que a cidade abandonou seu velho nome, e hoje é conhecida como Figueira Velha. Em meus estudos sobre o tema do horror misterioso de Bela Vista, pude perceber que, apesar de não haver qualquer indício de que a história que meu velho pai me contara fosse real, podia-se verificar uma certa coincidência na linha do tempo histórica, um momento onde o mal floresceu e a cidade sucumbiu.

Sim, uma grande analogia poderia ser feita. Se as histórias eram verdadeiras, então a reverberação de tamanha atrocidade poderia sim ter influenciado na derrocada do crescimento de Bela Vista.

Mas não fazia o menor sentido algo tão poderoso a ponto de fazer ruir o desenvolvimento de toda uma cidade não ter deixado nenhum traço de sua existência, a não ser um velho morador dissidente e suas histórias fantásticas. Dissidente sim, pois meu pai acrescentava, ao início e no encerramento de cada história, a advertência de que se tratava de um segredo, que não deveria ser jamais mencionado a ninguém. Talvez por este motivo eu nunca tenha me referido especificamente a estes eventos em nenhum de meus escritos ou palestras. A isto, e também ao fato de que preferia manter silêncio sobre tudo para que fossem conhecidos apenas por mim, não permitindo que ninguém mais se envolvesse no trabalho da minha vida. Se pudesse chegar à essência desse mistério, poderia realizar um dos maiores trabalhos já produzidos pela Universidade, e por que não, atingir um destaque mundial. Muitos conceitos da psicologia poderiam ser testados ali, e eu já os tinha preparados para aplicação em tudo o que encontraria, e teria que encontrar algo.

Tudo o que restava de Bela Vista, agora cidade de Figueira Velha, era uma pequena e insignificante cidade do interior, sem crescimento a ser considerado, com população decrescente e vivendo com os poucos recursos do agronegócio da região.

O ônibus da empresa Princesa dos Campos me deixou na rodoviária de Figueira Velha e seguiu adiante. Fui o único passageiro a descer na cidade, a despeito do ônibus estar cheio, mesmo em uma terça-feira à tarde.

A rodoviária estava vazia e não havia sinal de taxis disponíveis nas proximidades.

– Onde posso encontrar um bom hotel para uma hospedagem um tanto duradoura? – perguntei à atendente da empresa de ônibus no terminal rodoviário deserto.

Ela estava de cabeça baixa, conferindo suas redes sociais no smartphone apoiado sobre a bancada. Ao menos algum reflexo da vida moderna havia chego até ali: eles tinham smartphones. E internet! Talvez a cidade não estivesse assim tão longe da civilização afinal.

– Você só vai conseguir hotel na Praça Central. – disse, desinteressada, sem levantar os olhos da tela do aparelho celular.

Não poderia ser mais vaga. Será que não percebia que um turista jamais saberia onde encontrar a Praça Central? Pensando bem, ela não devia ser obtusa, mas simplesmente não se costumava receber muitos turistas em Figueira Velha.

– Sim, e sabe me dizer onde encontro um ponto de taxi que possa me levar até a Praça Central? – fiz uma nova tentativa.

Ela finalmente me alçou o olhar e percebeu finalmente que seu interlocutor era um estrangeiro em sua vida comum. Teve um leve sobressalto com esta constatação, mas subitamente tornou-se muito mais simpática e comunicativa.

– Oh, desculpe-me, mas é um pouco difícil encontrar um taxi por aqui. Há poucos na cidade e normalmente trabalham nos arredores do centro.

– E como posso chegar até a Praça Central?

Ela sorriu, com a expectativa da reação que causaria ao me revelar a maneira mais viável para chegar até o meu destino, mas disse mesmo assim:

– Caminhando. – e sorriu novamente, embaraçada – Mas não é muito longe, apenas 4 ou 5 quadras rua acima. – e apontou a direção da rua a ser tomada.

Não me perturbei. Àquela altura, já não esperava muito mais que aquilo, e ainda foi um bônus receber a notícia de que eram apenas 4 a 5 quadras. Sorri em resposta.

– Obrigado. Tenha uma ótima tarde de trabalho.

– Disponha.

Não era uma moça muito bonita, um tanto magra, loira e com um rosto fino e marcado, mas seu sorriso era encantador e contagiante. Já me voltava para dirigir-me a minha nova rota quando uma ideia surgiu em minha mente. Eu poderia começar minha pesquisa por ela, já que estava tão comunicativa. Obviamente ela não teria presenciado nenhum dos eventos, pois não deveria ter mais de vinte anos de idade enquanto os eventos datam de cerca de seis décadas atrás, mas poderia ter ouvido as histórias pelos mais velhos, assim como as ouvi de meu pai, e sem dúvida o que houvesse sido contado dentro dos limites da cidade teriam uma acurácia muito maior, inclusive na localização da grande árvore que foi o ponto central dos eventos sobrenaturais, dado que meu pai jamais teria conseguido me passar, pelo meu total desconhecimento da geografia da região. Mas para um morador da cidade, era bem possível que essa localização tenha passado dos mais velhos para os mais novos.

Voltei até ela, que em um susto interrompeu o movimento de voltar os olhos novamente à tela do aparelho celular, e manteve os olhos atentos às minhas novas intenções. Esta atenção renovou minha intenção de questioná-la, então comecei:

– Desculpe incomodar novamente, mas gostaria de fazer-lhe uma pergunta sobre a história da cidade. Não me apresentei, mas meu nome é Rogério Arda, sou pesquisador da Universidade Federal e vim até Figueira Velha com o intuito de investigar um terrível acontecimento ocorrido aqui no passado, e talvez você tenha ouvido esta história, ou conheça alguém que possa me contar detalhes destes eventos.

Ela estava com uma expressão assustada e interessada, de quem estava recebendo uma novidade assustadora e ao mesmo tempo excitante.

– Que história? – sua voz saiu cheia de intensidade, provavelmente nada de incomum acontecera na cidade durante toda a sua vida.

Respirei fundo e me preparei para contar, pela primeira vez, a história que me acompanhou toda a vida, abrir meu baú de eventos, que estava trancado a sete chaves, mas que naquele momento, naquela cidade, já não parecia ter necessidade de tanto segredo assim.

– Há alguns anos, mais precisamente durante os anos 50, houve uma série de eventos aqui na cidade, eventos que carregavam consigo uma maldade intrínseca, uma crueldade atroz, episódios perversos e hediondos, que colapsaram o crescimento da cidade e a transformaram no que é hoje, uma cidade pequena e ultrapassada.

– Nós não somos desatualizados.

Resignado, tive que sorrir.

– Claro, não quis ofendê-la. É que o futuro de Bela Vista, que era como a cidade se chamava naquela época, era muito promissor, a população crescia a cada temporada, tudo indicava que se tornaria uma metrópole. Mas, depois do que aconteceu, desse desastre devastador, sobrou pouco da bonança que se esperava. – em um momento de silêncio, pude perceber a confusão em seus olhos – Claro, não é da sua época, você não estava viva para ter vivenciado qualquer reverberação do que ocorreu, mas talvez tenha ouvido de algum morador da época, tenha escutado histórias que contavam com mais detalhes o que aconteceu… você já ouviu falar em algo do tipo?

Ela parecia perplexa com o que ouvia. E então acordou de suas reminiscências:

– Não, nunca ouvi falar de nada que tenha acontecido aqui. Pelo menos nada assim como o senhor disse.

– Nunca ouviu histórias, ou até mesmo lendas como o Diabo Loiro, a Amante Pálida, a Bruxa dos olhos de fogo, o Bode Nefasto em frente à Igreja? – a moça apenas balançou a cabeça negando – Nem ouviu nada sobre o massacre do Sete Facadas?

Ela ainda balançava a cabeça, impressionada com o que ouvia. Eram nomes de muito impacto, tenho que admitir, e ela deve ser uma jovem impressionável.

– Nunca…

Abri um sorriso de compreensão e ela sentiu-se boba, e respondeu com outro sorriso envergonhada.

– Desculpa, nunca ouvi mesmo. Não sei se é verdade o que você está contando, conheço bem esta cidade, minha mãe mora aqui desde que nasceu e nunca me contou nada desse tipo. Acho que você está na cidade errada.

– A cidade é esta sim, meu anjo. Disso tenho certeza. Que pena, você conhece alguém que poderia me ajudar com essas histórias? Alguém de mais idade? – e em uma lembrança fortuita – Sua mãe, será que posso conversar com ela? Quem sabe ela pode me ajudar…

– Olha moço, minha mãe também não era viva nessa época, mas minha vó deve ter vivido esse tempo, ela também vive aqui desde que nasceu. Só que ela já está bem idosa, tenho que combinar com ela um dia em que ela estiver bem.

– Claro, ótimo! Posso ficar com algum contato seu?

Ela anotou o número de seu telefone celular em um pedaço de papel e me entregou.

– Me liga amanhã, eu vou falar com ela hoje à noite e amanhã eu te digo.

– Maravilha, você me ajudou demais…

Ela abriu um belo sorriso.

– Disponha. Espero que aproveite sua estada em Figueira Velha.

– Obrigado, pode ter certeza que aproveitarei sim.

Virei-me novamente e desta vez tomei o caminho do centro da cidade. Algo estranho me ocorreu: o ar parecia mais pesado agora, algo como a sensação de que uma tempestade se avizinha, uma atmosfera com certa eletricidade, um sentimento de apreensão, inquietude tomou conta de meu ser durante um momento.

Mas não deveria ser nada, é apenas minha ansiedade tomando conta de minha consciência.

No entanto, algo de diferente havia naquela cidade…

 

Continua…

 

3 comentários sobre “A ANÁTEMA SOB A VELHA FIGUEIRA

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