O vento morno da tarde tocou o seu rosto e trouxe a seu espírito uma paz que não sentia a tempos.

Estava cansada, muito cansada, de tudo e de todos. O mundo era grande demais para seus ombros. E era ainda maior, imenso, pois o egoísmo era como uma doença que ressecava o espírito e aumentava a distância entre as pessoas, fazendo com que um pedaço de terra de dez metros quadrados pareça conter milhares de anos-luz. A cada passo nesse longo e cruel caminho da vida, mesmo em meio à multidão, parecia que a próxima alma amiga estava sempre à quilômetros de distância. E esse doloroso distanciamento de almas era demasiado cansativo para ela, sua vida estava a cada dia mais pesada, seus músculos mais tensos e sentia-se cada vez mais só. A desilusão, como uma erva daninha, assomava-se a suas horas de vida, principalmente nestes últimos dias, onde o firmamento de seu ânimo nublava, mesmo em meio ao sol do verão.

A brisa morna era enfim um balsamo para seu estado de espírito. Um folego de esperança em meio ao pesar de suas reflexões. O banco da praça era duro e incômodo, no entanto esse era a menor das preocupações em sua mente exausta.

Era um dia normal, uma quarta-feira de sol, e Curitiba pulsava de vida e seguia seu rumo indomável, seu fluxo eterno de corpos, orgânicos e não orgânicos, como se grandes veias pulsassem, correndo de um coração invisível e abstrato. Eram as rodas do moinho, as engrenagens do relógio, as peças com as quais o mundo se erguia sobre os corpos exaustos e moídos dos que ficam pelo caminho. A gigantesca máquina de moer que o ser humano criou para se autoflagelar. Uma cômica incoerência, uma insensatez.

Um paradoxo.

Uma máquina que se alimenta do “eu” e destroça o “nós”, mesmo que o “eu” faça parte do “nós”. Autoflagelo.

A humanidade enfim, tão orgulhosa de sua racionalidade e inteligência é, na verdade, apenas uma caricatura malfeita de si mesma. Ela não conseguia acreditar que com tantos séculos, milênios de convivência, as pessoas ainda ignorem umas às outras. Vivemos em um mundo bárbaro, em uma eterna e feroz competição uns contra os outros, a vida já não é mais vivida e sim vendida. Somos escravos, mas não mais escravos de senhores feudais ou de senhorios de casa grande, o que nos escraviza é algo muito maior e intangível, até mesmo imperceptível, que nos rouba as forças, a lucidez, a vida. Não vivemos mais, apenas sobrevivemos. E essa roda que nos carrega é tão imensa quanto irrefreável, incontível. Não há mais saída.

Ela sabe que tem sorte. Ainda que o mundo seja opressor, ela não se sente oprimida. O que enche seu coração é apenas um sentimento de profunda tristeza e percepção nítida das coisas ao seu redor. Nunca havia compreendido antes o quanto estava metida em um fluxo contínuo de extração diária de sua força vital, até que agora, essa curva inesperada no caminho, essa brusca força centrípeta a tirou do círculo eterno e corrosivo que é a vida cotidiana atual.

Em um dos cantos da praça, em frente à Catedral, os mendigos pedem esmola para sustentar seus vícios. São pessoas que se apartaram da vida comum, mas por um motivo menos nobre, um desejo irrefreável de algo que os consome fisicamente e mentalmente. São as sobras do processo vital e viral deste mundo enfermo. Há quem esteja à margem desse cortejo vital que abarca o mundo, mas não por vontade própria, e sim por falta de opção, como o casal de haitianos refugiados que passam a sua frente agora, conversando em uma língua que ela não entende, mas que mesmo em sua vida humilde conseguem ser mais felizes e livres que todos os que esperam da riqueza material a felicidade. Um sorriso lindo, aberto e livre de uma fugitiva da adversidade em uma terra ainda mais opressora que a nossa.

Um sorriso de dar inveja.

O vento morno daquela tarde de verão tocou novamente seu rosto como um beijo carinhoso, que a fez lembrar que agora ela não era mais importante, que agora era hora dela retirar-se da equação, que era o momento de desfocar-se do seu ser. O que viria a partir deste momento exigiria muito dela, seria um desafio, um milagroso e poderoso desafio. Mas mesmo com o futuro que se pronuncia tão fatigante, ela estava feliz, e mesmo com a exigência de tanta responsabilidade por vir, sentia-se profundamente livre.

Sua força vital renovava-se a cada momento, suas forças nunca estiveram tão disponíveis e sua vida nunca fora tão sua como agora. Parecia-lhe até certo ponto cômico as pessoas ao seu redor em seu fluxo irrefreável e arrogante.

Seu sorriso se abriu, esvaziando toda a tristeza que preenchia seu ser. Queria gritar alto, rasgar o zumbido interminável da máquina de moer deste mundo. Ela tinha algo agora que a trouxe para a vida, a verdadeira vida que uma pessoa deve viver, para o mundo real, por trás do pano que cobre que acontece na vida enquanto nos preocupamos com outras coisas.

Sua mão tocou seu ventre. Lá dentro algo ainda bem pequeno representava sua epifania. Pequeno ainda, mas para ela era tudo. Sentia seu útero resplandecer, cobrir toda a sua existência. Um poder que a libertou.

Sua vida, sua paixão, seu amor.

Seremos de agora em diante e por toda a minha vida, nós.

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