– Sim, mas veja, o amor é uma escolha. É sim mais simples de se fazer quando se trata de um filho, pai ou mãe, mas mesmo em relação a pessoas próximas, ele trata-se de uma escolha. O amor sempre parte de você e não precisa da reciprocidade do outro.

A expressão de surpresa no rosto do rapaz era explícita.

– Mas como posso amar alguém que não me ama, que me trata mal, que me odeia? Isso é impossível! Não quero ser feito de idiota, nem de capacho dos outros.

A mãe esboçou um sorriso benevolente.

– O amor é um sentimento muito simples, puro, mas que é quase incompreensível no mundo em que vivemos, onde não se tolera fazer algo por alguém sem receber nada em troca. Os sentimentos hoje em dia são escambo, moeda de troca: você me trata mal, eu te odeio, você me faz um carinho e eu te abraço. Nesta visão atual sim, é que o amor acaba por parecer muito mais complexo, pois ele na verdade é um sentimento que não exige uma contrapartida, você pode e consegue amar a qualquer um, um pai negligente, um filho violento, um amigo interesseiro, e por incrível que possa parecer, até mesmo um inimigo. O verdadeiro amor é totalmente livre de qualquer amarra de orgulho, preconceito e julgamento.

– Ah não, um inimigo não tem como amar, afinal ele é seu inimigo! – disse o filho completamente indignado.

– Mas aí é que se encontra o segredo. Quando você ama alguém que te odeia, é necessário fazê-lo por escolha própria, pois não há nenhum aspecto que te estimule a isso. Você simplesmente escolhe romper a barreira que foi criada e oferecer compreensão e ajuda.

– Mas por que afinal eu escolheria amar um inimigo?

O sorriso da mãe, antes tímido, agora se abriu completamente.

– Não tem necessidade de um “porquê”. Para se ter uma ideia do que é o amor, deve-se primeiro compreender isso. O amor não é um sentimento qualquer, e acredite, ele pode realmente mudar sua vida. Quando você opta por amar, ele te transforma, é como se fosse uma criação de energia, você projeta coisas boas para a outra pessoa, mesmo que ela não aceite, ou compreenda, mas ao mesmo tempo esse ato carrega seu ser de felicidade e energias boas. Ele é enviado até o outro, mas não deixa de carregar a si mesmo, na mesma intensidade. O amor não é escambo, mas no fim ele sempre traz uma recompensa, pois uma pessoa que ama é mais leve, mais feliz, tem muito mais paz e uma vida plena.

O filho, confuso, ainda estava perdido.

– Mas tem vezes que a companhia de uma pessoa se torna tão insuportável que não tem como escolher amar. – disse o filho – Se você não der um basta em algumas atitudes, se for muito bonzinho, vão montar cavalo em você.

– O amor é sempre uma opção, é você que precisa escolhê-lo. Mas perceba que são duas coisas diferentes: você pode amar, ajudar, compreender sem se sentir capacho de ninguém, como você disse antes. O amor é dar, doar, oferecer, o amor nunca acaba, quanto mais você entrega aos outros, maior ele fica em seu coração. É uma experiência melhor que qualquer droga alucinógena, é um estado superior de espírito, onde você acessa um nível de consciência que permite que você se ligue à toda a humanidade de uma forma singular. Você pode amar alguém que está do outro lado do mundo, e essa pessoa vai receber sua energia se ela também acessar esse nível de consciência, isto é, se ela também optar por amar. Com esta compreensão, você está longe de ser um capacho ou qualquer coisa parecida, tudo o que você fizer não precisa de compensação, não é um escambo, mas será uma fagulha de luz neste mundo tão escuro.

– Mas o que eu preciso fazer? Não sei nem por onde começar.

A mãe ficou animada com o desejo que o filho, mesmo que timidamente, apresentava.

– Escolha se doar, entenda que cada pessoa é única em sua compreensão de vida, cada pessoa neste mundo tem seu próprio caminho, único, construído por si mesmo e para si mesmo. Respeite as diferenças que sempre haverão entre vocês e procure se projetar no outro, compreender sua história de vida e ter a empatia necessária para que você não faça a ninguém o que você não gostaria que fosse feito contigo. Uma máxima bastante difundida, mas pouco compreendida é que o amor é colocar a felicidade do outro acima da sua própria. – a mãe sorriu novamente, um sorriso de compaixão, que refletia em seus olhos já marejados – E no fim é isso mesmo, fazer com que seu coração se projete e transforme a tristeza do outro em alegria, a depressão em felicidade e a solidão em fraternidade. – e, após um suspiro profundo, ela continuou – Como o mundo seria muito melhor se todos tivessem amor em seus corações…

– Mas mãe, eu não consigo entender…

Uma lágrima morna e brilhante caiu através da bochecha da mãe, descendo até pingar em seu braço.

– Sim, meu filho, não se pode explicar por palavras, só é possível compreender o amor, amando…

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