Era uma daquelas tardes de muito calor, onde você pode sentir o hálito quente de Curitiba em cada canto da cidade, famosa por seu clima frio europeu, mas que em poucos dias de verão cobra um preço muito caro de todos aqueles que reclamam do quão frio o inverno foi. Isso quando não nos acaricia com as mãos quentes de verão ao acordarmos, para logo após o almoço e algumas gotas de chuva, nos fuzilar com gélidos ventos de inverno. Isso tudo em um mesmo dia!

Bipolar Curitiba…

Eu nunca havia visto uma obra de Caravaggio, pelo menos não de tão perto. O mais próximo que tinha chego desta experiência havia sido nas fotos impressas nas folhas da Bíblia ilustrada, em homenagem à visita do Papa João Paulo II ao Brasil em 1980, que tinha na casa de minha mãe. Lembro que desde pequeno eu me impressionava com a beleza e perfeição dos traços com que artistas como Rafael, Da Vinci, Michelangelo, Caravaggio e tantos outros, delineavam os momentos mais importantes descritos na História Sagrada. É uma riqueza de detalhes tal, que é quase inacreditável que tenham sido feitas com pincel e tinta. Mas o que impressiona não é a qualidade fotográfica destas pinturas, mas o sentimento que elas trazem à tona. É quase possível se sentir presente na tensão das sombras rompidas apenas por uma vela acesa entre Jesus e Caifás na tela de Gerard van Hontorst. Ou sentir o dedo de São Tomé dentro da ferida de Cristo na pintura de Caravaggio.

Caravaggio…

Um dos pintores que mais me encantaram, pela beleza e perfeição de suas obras. Prefiro a perfeição e realismo das obras do renascimento à harmonia – ou desarmonia – de traços de movimentos como o Cubismo, ou mesmo à riqueza de cores do Impressionismo. Acho que sempre fui um romântico. A poesia do romantismo, mesmo aquela cheia de negativismo e tristeza da geração do mal do século, sempre me trouxe um sentimento de liberdade, de que o mundo não está assim tão distante do meu coração.

Não consigo evitar o pensamento de que a arte atualmente seja tão efêmera, tão fugaz. Hoje em dia nada é feito de forma integral, completa, com conteúdo. Tudo o que vemos são expressões instantâneas, que servem apenas para aquele momento, e que podem ser descartadas no instante seguinte como uma bexiga de ar ao ser furada. Talvez sejam exatamente isto, contêm apenas ar, que logo se esvai e então, não significa mais nada. Andando por livrarias e vendo os novos títulos lançados diariamente, não consigo imaginar que muitos destes sejam lidos e apreciados em um futuro não muito distante.

Olhando o Caravaggio à minha frente me sinto desiludido, sem esperança, carente. Assim que virar as costas e seguir meu caminho, sei que não mais sentirei a plenitude da verdadeira arte, e serei então arremessado novamente ao que chamam hoje em dia de arte, mas que não é arte, e sim apenas entretenimento, fugaz, vazio, passageiro. Novela, livros, música… sem alma, sem sentido algum…

Música…

Desde a música clássica até o rock n’roll, com algumas ressalvas certamente, sempre senti a alma, a atitude, o sentido que cada acorde, cada movimento, continham em seu interior. Cada sinfonia, cada canção, era um mundo novo a ser experimentado, uma vida nova a ser vivida. Beethoven, Bach, Mozart, Tchaikovsky…

Tchaikovsky…

Por algum motivo sempre gostei da arte russa, principalmente Dostoievski e Tchaikovsky. Dostoievski fez sentir-me muito culpado lendo Crime e Castigo, acompanhei aflito a angústia do personagem principal desde seu desafortunado crime. Como é interessante que uma obra do século 19 seja ainda hoje tão pertinente e perturbadora! Realmente isto é arte… quando escutei pela primeira vez a Abertura 1812 de Tchaikovsky, e sabendo a qual momento histórico a que a obra se referia, eu consegui sentir a paz inicial, a força da conquista das tropas de Napoleão ao som da marselhesa, e principalmente o jubilo da vitória russa com os tambores e canhões da festa final… há mais de um século, e sem qualquer ajuda visual como os dos filmes de hollywood! É incrivelmente bela a arte em seu estado natural.

Neste momento me dou conta do quão engraçada é a minha imaginação, que voa livremente como um pássaro, sem qualquer obrigação. Nunca tive muito controle sobre minha mente, que flui como o ar, um assunto sempre leva a outro e quando menos espero estou refletindo sobre questões das mais diversas.

Um último olhar de agradecimento para o Caravaggio e olho ao redor. O MAC está vazio, assim como a maioria dos museus em Curitiba estão a maior parte do tempo. É triste este descaso com algo tão poderoso como a arte.

Pode parecer incoerente pensar na arte como algo perene se tão poucas pessoas a apreciam hoje em dia, mas a perpetuidade do que pode ser realmente considerado arte está muito mais em seu conteúdo, no que ela expressa, enfim nela própria, do que no expectador. Existem coisas que estarão sempre ali para quem tiver olhos para vê-las. Neste sentido a arte tem muito mais a ver com o amor.

O amor…

Sim, esta é talvez a referência maior que a arte pode assumir: o amor. Assim como a arte, o amor hoje em dia nada mais é que uma palavra vazia. Não tem mais significado para as pessoas, não expressa mais nenhum sentimento. Amor é sexo, amor é uma pessoa da qual gostamos e com a qual convivemos, amor é uma palavra escrita em um poema tão vazio quanto o balão descartado que é a arte atual. O mundo atual não precisa mais de significado, não precisa mais de sentimento, amar tornou-se obsoleto e assim acharam uma nova funcionalidade para a palavra. As pessoas desistiram de si mesmas, a felicidade não está mais vinculada à pessoa, mas sim a bens materiais, a riqueza, ao poder… um triste fim para uma humanidade que recebeu um mundo tão belo para prosperar e crescer.

Neste mundo do “ter” e não mais “ser”, a arte e o amor não são mais necessários. Um serve apenas para entreter e nada mais e outro já não serve pra nada.

Pronto, minha mente já chegou ao negativismo da falta de esperança em um futuro melhor. Algum filósofo metido a entendedor das coisas da vida me chamaria de pessimista, e talvez eu o seja mesmo, mas é tão difícil imaginar uma solução para esta rua sem saída em que nos metemos hoje em dia. Se Deus estiver nos vendo, é um momento de profunda tristeza para um ser superior que espera que sigamos seu caminho.

Desvanecendo meus pensamentos saio para a rua, essa sim movimentada, cheia de pessoas, carros, vida. Cada pessoa seguindo sua rotina, seu caminho, seu destino. Será que alguém mais pensa como eu, será que alguém mais perdeu as esperanças no destino da humanidade? Aqui fora, na agitação da cidade, este assunto me parece tão distante e utópico, que perde a importância, perde o contexto.

A Praça Zacarias com seus mendigos, taxistas e gente passando rapidamente, com urgência, parece muito mais com uma passarela que com uma praça. Ninguém para ali pra nada, todos passam. E passam rápido. E eu também, como mais uma peça desta grande engrenagem, passo. E passo rápido, respeitando o fluxo.

Penso no Caravaggio e sinto saudades dos momentos em que passei longe deste mundo transviado, que perdeu o rumo e o “bonde da história”. Dos momentos em que parecia que a solução para o destino de toda a humanidade iria aparecer e que seríamos salvos pelas mãos da arte e do amor, deste sentimento que tudo abarca como um abraço carinhoso de mãe. Mas ficaram apenas migalhas em meu coração… talvez um dia eu as use para marcar o caminho de volta desta floresta fechada onde estou me metendo.

4 comentários sobre “CARAVAGGIO

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