– Eles não conseguem viver em paz. – O anjo, com o cenho franzido em um aspecto austero fez um sinal de desaprovação com a cabeça. – As suas escolhas são sempre egoístas, nunca pensam no próximo. O senhor os fez tão diferentes uns dos outros e isso é tudo o que eles menos suportam.

O Senhor estava compenetrado na imensidão da humanidade.

– Eles se complementam, não são diferenças, mas completude. Eles só não entenderam isso ainda.

– Mas quanto tempo ainda vai demorar para que eles compreendam isso? Que evoluam?

– Talvez amanhã, talvez nunca.

O Senhor sorriu suavemente, gostava de propor uma dúvida, isso alimentava o desejo do anjo em procurar desvendar todos os mistérios.

– Eles estão aí caminhando há milhares de seus anos e parece que, em cada encruzilhada, sempre tomam o caminho errado. O Senhor mesmo, em carne e osso, desceu até eles há mais de  dois mil de seus anos e plantou a semente do bem, indicou-lhes o caminho – o anjo virou-se para o Senhor, em sua fisionomia ressaltava-se uma certa inquietação – mas ainda assim eles insistem em entender a mensagem da forma que melhor lhes convém.

– A mensagem foi para todos, mas apenas alguns conseguem acessá-la integralmente. Ela é simples demais para o sistema de crenças e valores que eles criaram para si, mas aos poucos alguns vão conseguindo entendê-la e vivê-la, mesmo que com dificuldade.

O anjo, desanimado, voltou novamente sua atenção para a humanidade.

– No fim, parece que nada mudou, eles continuam os mesmos, só mais orgulhosos e seguros de si. Criaram uma sociedade voltada para o sucesso e o poder, idolatram a ambição e a ganância, lutam por si próprios e pelos seus interesses, num completo individualismo.

– Eles ainda são jovens, estão aprendendo a serem simples, a viverem em harmonia entre si e com o mundo.

– Jovens? – O anjo estava pensativo. – Mesmo com tanto tempo para evoluir, todo o legado que eles construíram os levou à uma realidade cruel e insensível, que proporciona a entrada do mal em suas entranhas, ou até pior, convida tudo o que é ruim para instalar-se em seu meio. – O anjo indicou com o dedo para vários locais enquanto explanava. – Um pai estuprando o próprio filho, com meses de vida, onde isso poderia ser imaginável? Crianças sendo usadas para exploração sexual? Eles se dividem em gangues e milícias e exércitos, para matarem uns aos outros por um delimitado poder, tão podre quanto à vida que levam. Os escolhidos para governar pelo povo, governam apenas para si próprios, criando pobreza, desigualdade, opressão. E mesmo esses menos favorecidos mentem, roubam, matam e produzem todo o tipo de maldade uns com os outros.

O anjo voltou sua fronte para o senhor e disse inquieto:

– O senhor os cria bons e puros. Quando nascem são como nós, anjos. Mas tão logo crescem, tudo muda, são impulsionados para um mundo cruel, maldoso, egoísta e lascivo – sua expressão era um desalento, quase um desespero – o que se pode fazer? Estamos perdendo essa batalha contra as forças do mal, está cada dia mais difícil protegê-los.

Pela primeira vez o Senhor desprendeu um pouco de sua atenção na humanidade e voltou-se para o anjo.

– Você tem feito um trabalho formidável protegendo-os, mas há uma certa ambiguidade no coração do ser humano. Eles sabem o caminho certo, entendem o que precisam fazer para crescer como indivíduo e evoluir, e em muitos momentos seguem esses preceitos, mas é tudo muito simples, o amor que preguei incessantemente enquanto estive entre eles é simples demais para seus anseios, em determinadas situações eles se veem acima disso tudo, pois é a ideia que o sistema de valores que está em vigor lá embaixo os leva a acreditar. As suas mentes conseguem ver ao longe, mas seus preceitos os limitam. Como você disse, todos nascem bons, e a bondade estará em seus corações a vida inteira, para o dia em que quiserem realmente vivê-la.

– Não podemos fazer nada para mostrá-los o quanto estão errados em suas decisões?

– E nós fazemos. As coisas pequenas da vida, os dons do dia-a-dia, foram criadas para que o amor fosse evidenciado e a compreensão do mundo fosse disseminada, diariamente a cada amanhecer, independente do quão terrível eles se comportarem, pois são reflexos da bondade.

– Mas não seria muito mais produtivo descer novamente e mostrá-los isso diretamente? Assim pelo menos iriam acreditar.

O senhor sorriu novamente para o anjo e em seguida voltou-se novamente em sua totalidade para a humanidade.

– Isso não teria efeito, seria uma imposição, acabaria completamente com o que eles são, já lhes foi dada liberdade de escolha para que isso não acontecesse.

O anjo, voltando-se também para o mundo dos homens, falou inseguro:

– Em alguns momentos acredito que o livre-arbítrio tenha sido, na verdade, um grande erro.

O Senhor sorriu mais uma vez, mas agora uma lágrima surgiu em seu olho esquerdo, desceu por suas bochechas e caiu da imensidão dos céus.

– Isso na verdade, é o que os mantêm vivos, e por isso que são tão valiosos e importantes. A bondade não existiria se tivesse que ser imposta. É apenas com a liberdade que lhes dou é que podem escolher verdadeiramente o bem, e fazer com que esta bondade possa mudar suas vidas.

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