Caro leitor,

Começo estas mal traçadas linhas pedindo perdão por apossar-me do seu precioso tempo com reminiscências de um octogenário, mas acredito que seja o melhor a fazer nestas épocas de solidão em que estamos vivendo. Me entrego a este ofício agora, pois vejo que você, que aqui me acompanha, sabe da importância do conhecimento passado entre gerações, e que a experiência é o principal sustento da sabedoria. E sim, um velho como eu já viveu muito, viu muito, ouviu muito e conheceu as várias facetas do destino, enquanto rege nossos passos como um maestro egocêntrico.

Mas o que pretendo ponderar neste meu texto, repito que são apenas percepções de um idoso, é sobre o mundo. Não o mundo no sentido de planeta, natureza e criações do homem, mas o conceito abstrato de mundo, isto é, as relações que entrelaçam os seres humanos e ligam suas experiências de vida. É muita pretensão minha, claro, querer debater sobre uma quantidade tão imensa de assuntos, mas me empenharei em tratar de alguns pontos que convergem nesse contexto.

Estimado leitor, a vida é curta. Somente quando já percorreu a maior parte do caminho é que você se dá conta do quão rápido os anos se passaram. Nossos dias são momentos efêmeros, que se esvaem facilmente por nossos dedos como areia muito fina. Posto isto, agora você deve estar antevendo a frase, ou alguma sentença parecida: “então viva intensamente, como se não houvesse amanhã!”. Sim, viva uma vida feliz, busque o que essa existência puder te trazer de melhor, mas essa verdade, assim como a maioria das verdades, não é assim tão plena, absoluta. Muito pelo contrário, é preciso não apenas viver, mas como diz o refrão da tão aclamada música, “é preciso saber viver”.

O conceito que gira ao redor da expressão “viva intensamente”, trata o conselho de forma individual, egoísta até, onde você precisa buscar satisfação, sucesso, grandes conquistas para si mesmo, engrandecer-se e ostentar uma posição de glória sobre os demais. Aquele que chegar no topo desta pirâmide imaginária torna-se o grande exemplo, o modelo padrão a ser seguido, o arquétipo da perfeição.

Mas sei, querido e amado leitor, que se te tenho aqui comigo e mais, se teve a perseverança de chegar até este ponto, sua visão não é assim tão turva e limitada por este cabresto, pois o mundo das palavras é muito mais vasto em seus conceitos e deveras zeloso pelo que carregamos em nosso peito, muito além do coração físico, mas a alma, o espírito que corre livre pelos campos gramados da felicidade e do amor.

Desculpe novamente este velho escritor, meu prezado companheiro, por abstrair-se da linha principal do pensamento, isso são hábitos que a idade traz consigo infelizmente. O que quero dizer afinal é que, viva sim cada ínfimo momento que a vida te proporcionar, tão intensamente quanto puder, mas aqui lanço um porém, pois não viva com o seu “eu”, mas procure sempre o seu “nós”. Trata-se de um conceito confuso talvez, um tanto melindroso eu sei, mas peço que olhe para cada momento de sua vida, você nunca está sozinho. Nada do que acontece em sua vida é exclusivo seu, tudo tem influência de alguém ou consequência para alguém. É impossível andar sozinho neste mundo, pois estamos todos conectados de alguma forma, e toda a vez que você é egoísta em suas resoluções, está atingindo algum elo desta corrente.

A vida é demasiada curta, perdoe-me se me repito, e por isso peço-lhe, dileto leitor, desacelere e preste atenção nas pequenas coisas, nos laços que te unem a este emaranhado que forma a vida, acredite-se parte de algo maior, pleno, superior. A família, os amigos e até os inimigos, tem influência nos seus passos, acredite. E se cada um quiser seguir por um caminho diferente, ninguém saíra do lugar, pois estamos todos interligados. Tudo isso é muito abstrato e subjetivo, mas acreditem, os laços que nos unem estão lá, mesmo que não estejamos juntos fisicamente.

Hoje em dia é mais fácil se relacionar de forma virtual, e é interessante isso, mas de certa maneira isso distancia as pessoas. Vejam, já lhes disse, sou de uma época em que a interação era pessoa a pessoa, e na minha opinião a relação smartphone a smartphone deixa as pessoas menos sensíveis e compreensivas com o próximo. É muito mais fácil ignorar a ligação que temos enquanto sociedade, quando você não interage com outra pessoa e sim com um avatar digital.

Agora, meu apreciado leitor e já companheiro de reflexão, cheguei em um ponto que me perturba imensamente, pois acredito ser uma inflexão perigosa em nosso mundo. Quando perdemos a referência do contato sensível com outros seres humanos, nos fechamos em nós mesmos e flexionamos nosso ego a ponto de este dominar todo nosso ser. Que Freud não me pegue falando de seus conceitos tão amadoramente, mas quando o eu toma conta do nós, é que liberamos o que está guardado, escondido, oculto, dentro de nossos corações, e isto pode ser bom ou pode ser mal, depende do que a pessoa tiver cultivado em sua vida.

Permita-me, ó bom leitor e companheiro, fazer uma citação que não é minha. Uma pessoa com um grande conhecimento da vida, uma vez me contou uma história, uma espécie de parábola, um dito de sabedoria, enfim, que dizia que certa vez, um velho e sábio chefe indígena de uma tribo norte americana havia dito que cada homem possuía dois lobos em seu coração, um bom e outro mal, que lutavam incessantemente por dominar um ao outro. Foi então questionado sobre qual lobo venceria esta luta afinal, e respondeu que seria aquele que o homem alimentasse melhor. Muito abrangente e esclarecedor não? Acredito ser por esta característica que Cristo sempre falou por parábolas.

Enfim, o mundo sofre hoje uma reclusão massificada devido à pandemia, é bem verdade, mas esta constatação não é de agora, o ser humano está cada vez mais isolado, individualista e em um extremo, egoísta, e esta evolução, ou involução, já vem se desenvolvendo há tempos, e estes comportamentos são alimento apenas para os lobos ruins em nossos corações.

Amado leitor, tomei-lhe tempo demais com minhas divagações, por gentileza desculpe este senhor, que já trilha suas veredas derradeiras neste mundo e anseia por falar sobre o que lhe incomoda. Se chegou até estas últimas palavras é por ter uma perspectiva próxima da que eu tenho, e por isso estimo-te tanto. Sendo assim, despeço-me com o devido cuidado para que não se sintas negligenciado de minha atenção, e instigo-te a refletir diariamente sobre qual lobo merece sua dose diária de ração e como alimentar-lhe em detrimento de seu rival. É uma grandiosa tarefa, tenha certeza!

Agradeço vossa atenção, meu caro companheiro, e espero que minhas lentas e por vezes falhas palavras tenham sido de valia para algum aspecto de sua vida. Um grande abraço de amor verdadeiro de um velho prolixo e tagarela.

6 comentários sobre “CARTA DE UM ANCIÃO

  1. Parabens Ivandro! excelente reflexão da vida. Refletir sobre a vida não é apenas um processo de identificar falhas, como muitos podem acreditar. Significa aprender a conhecer melhor você mesmo e a sua trajetória, entendendo os seus motivos e buscando formas de evoluir e ser ainda melhor

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    1. Obrigado tio! Sim, evolução e busca de uma identificação com o mundo e com o próximo, é o que nos torna mais humanos e mais dignos. Amor e empatia enfim, são certamente importantes nesses dias dificeis que estamos vivendo, e para que possamos vive-las é preciso sim muito autoconhecimento.

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