Já havia passado algumas horas após o meio dia, mas o sol ainda estava alto no céu, lançando seus raios de calor escaldante de uma tarde de verão, de certa forma dificultando minha incumbência de caminhar até meu destino. Figueira Velha situava-se na região dos vales do rio Iguaçu, no sul do estado do Paraná, localidade famosa por ostentar um inverno demasiado rigoroso, apresentando inclusive temperaturas negativas, no entanto no verão, os raios solares e a baixa umidade, a despeito das matas que a envolvem, faziam com que o calor se tornasse deveras sufocante.

A rua pela qual me foi indicado o caminho, e que eu percorria neste momento, possuía um asfalto muito antigo, mas em condições quase perfeitas, o que me trouxe à mente a reflexão do quanto a cidade estava estacionada no tempo, pois seguramente haveria pouco transito de veículos nesta via. Isto, obviamente era bom para meu intento, pois transformava a rua em uma grande passarela, e me permitia depositar a atenção nos arredores, em cada pequeno detalhe exibido pela cidade.

Nesta região mais próxima da rodoviária não havia uma proliferação muito grande de residências, apresentando grandes terrenos gramados ou com mato em crescimento e apenas uma casa aqui e outra acolá, sem cercas ou muros a circundarem.

No entanto, na segunda quadra de caminhada, pude perceber uma grande área circundada por um muro baixo de tijolinhos de barro vazados, deixando ver parte do conteúdo de seu interior. Grandes e antigas lápides, construídas em um terreno de terra marrom avermelhada, que levantava um pó seco por entre túmulos. Não havia gramado, nem qualquer pavimentação entre estes, apenas uma larga calçada de paralelepípedos que se estendia do portão de entrada até uma grande área circular, no centro do terreno, também de paralelepípedos onde se encontrava o cruzeiro, que era o local em que se depositavam várias velas e flores, em homenagem aos mortos. Era o cemitério de Figueira Velha.

Minha atenção foi atraída de tal forma por esta necrópole tão antiga e surreal, que não me detive de atravessar a rua para adentrar seu portal. De cada lado do passadiço central, muitas lápides, distribuídas lado a lado, no entanto sem nenhuma uniformidade entre si, umas maiores e bem decoradas em detrimento de outras menores e mais simples. Cruzes, imagens de anjos e fotos, muitas fotos de seus moradores falecidos, algumas com apenas nomes e datas de nascimento e de morte, outras, no entanto, com gravações em suas frontes de grandes e eloquentes epitáfios, ou então de belas passagens bíblicas que versavam a morte. Muitas tinham aparência de abandonadas, que não recebiam visita de qualquer familiar há muitos anos, contudo outras apresentavam um zelo impecável, com toda a superfície do tumulo imaculada, a despeito do pó que se avizinhava, e contavam com flores recentes que ainda exalavam um odor agradável.

Muitos nomes, famílias inteiras enterradas lado a lado, ou em gavetários, que podiam armazenar mais caixões ocupando menor espaço. Próximo ao cruzeiro no centro, viam-se grandes jazigos, provavelmente das famílias mais proeminentes da cidade e que, de tão antigas, deviam pertencer a pessoas que a viram o florescer quando ainda se chamava Bela Vista. Algumas famílias reconheci das histórias de meu pai, Matosos, Piconezzis, Flores, provavelmente muitos dos que aqui estão foram testemunhas dos aterrorizantes eventos que mudaram o destino desta cidade para sempre.

Em minha pesquisa já havia constatado a criação de um novo cemitério mais distante do centro urbano, portanto este certamente devia ter recebido todos os falecimentos da época calamitosa em que a hecatombe se abateu sobre a então próspera cidade de Bela Vista.

Mais alguns passos e cheguei ao círculo central de paralelepípedos onde se erguia uma grande cruz de madeira. Era circundado por um muro baixo de tijolinhos, aberto apenas onde a calçada chegava até ele. A base da grande cruz era também um círculo, mas de concreto desta vez, com uma largura de cerca de dois metros de diâmetro, e um de altura, onde encontravam-se diversas velas já queimadas e derretidas, sendo que apenas três ainda queimavam solitárias, cada uma em um canto.

Foi uma destas velas acesas, a que estava mais próxima do pé da cruz, que me chamou a atenção para um detalhe que de outra forma me passaria despercebido: na área ao redor de onde o lenho da cruz se enterra no concreto não havia nenhuma vela, a despeito da profusão de cera derretida no restante da base. Aproximei-me e vi que algo estava escrito diretamente no concreto, com letras bem contornadas, provavelmente feita por tipagem:

“QUE O PORTAL PERMANEÇA FECHADO E A VIGÍLIA SEJA ETERNA.”

Que sentença singular. Qual teria sido o motivo para ser gravada justamente neste ponto, no centro de um cemitério?

E foi então que tomou forma em minha mente uma ideia que se apresentou fantástica. Seria este portal o ponto de convergência relatado por meu pai em suas narrativas? O que se encontrava enfim, abaixo da velha figueira? E a vigília eterna, seria o motivo de todo o segredo que rodeia estes acontecimentos?

A excitação arrebatou meu coração que disparou, exaltado. Estaria eu a frente do primeiro vestígio que comprova a veracidade das histórias contadas por meu velho pai? Encontrei-me em um estado de profunda agitação, entusiasmado com o que acabara de descobrir…

– Boa tarde.

… e então fui tomado de assalto de meus pensamentos pela surpresa de ouvir a voz de outrem. Acreditava estar só, no entanto, ao voltar-me em direção ao som, deparei-me com um homem, de cerca de 40 anos, com a face já muito marcada pelo tempo, o que lhe dava a aparência de ser ainda mais velho.

– Olá, boa tarde. Perdoe-me o sobressalto, imaginei que não havia mais ninguém além de mim neste cemitério.

– É um cemitério bem grande, e meu trabalho é cuidar para que tudo fique em ordem. Meu nome é Alberto, sou o zelador.

– Imagino que não haja mais sepultamentos aqui ultimamente.

– Desde a criação do novo cemitério, este foi deixado de lado, agora só recebe visitas. Faço apenas a manutenção, como a limpeza das velas já queimadas, o que vim fazer agora.

Mesmo o anticlímax que o surgimento de meu novo companheiro causou não me demoveu a curiosidade sobre a pista que certamente descobri. Pela sua idade, provavelmente não tenha sido testemunha dos acontecimentos, mas possivelmente o conhecimento dos fatos devem ter passado de geração em geração, afinal, se a minha teoria sobre a escrita no cruzeiro, “a vigília seria eterna”, e todos deveriam estar envolvidos.

– Meu caro…

– Rodinei é o meu nome. – respondeu o zelador como se já antecipasse a necessidade de se apresentar.

-Rodinei – dirigi-me então respeitosamente – desculpe-me incomodar seu oficio e detê-lo por mais tempo do que o necessário, mas preciso fazer-lhe uma pergunta: bem aqui, ao pé da cruz, nesta área onde não há vela alguma, está escrita uma sentença deveras curiosa, você sabe a que ela se refere?

O homem então curvou-se levemente, pousando seu olhar sobre a base do cruzeiro, demonstrando o menor interesse possível durante o processo.

– Deve ser apenas uma frase de luto. Vigília – e abriu os braços desinteressado – deve ser o velório.

Não sei bem ao certo o motivo, mas seu desinteresse e sua falta de conhecimento me trouxeram furor ao coração. A falta de respeito à história da cidade meu deixou deveras indignado.

Sorri enfim, para que cólera não fosse visível em minha expressão facial.

– Perdoe-me continuar importunando, mas você sabia que esta cidade já foi chamada de Bela Vista?

Demonstrando uma curiosidade fajuta o zelador respondeu:

– Nossa, não sabia não. Era um nome muito mais bonito que Figueira Velha ao menos. – e esboçou um sorriso cordial de quem não queria mais conversa.

– Sim, e era uma cidade muito mais viçosa mas eventos traumáticos a transformaram no que é hoje – a fúria estava quase chegando a meus olhos, ficaria evidente meu ódio, mas então baixei a cabeça e desisti deste meu interlocutor – mas você certamente é muito jovem para ter presenciado tais acontecimentos, e pelo visto não teve contato com qualquer informação deste período.

Uma breve e indecisa hesitação passou pelo rosto do zelador, algo tão leve e fugidio que a percepção deste me foi quase inconsciente. Algo estava escondido naquela oscilação de caráter. Mas o homem tão logo já estava novamente seguro de si novamente, como se nada houvesse acontecido.

– Não mesmo, desde que me entendo por gente esta cidade chama-se Figueira Velha, e ela sempre foi o que é hoje. Infelizmente acredito que estes acontecimentos traumáticos tenham acontecido em outra cidade. Te garanto que aqui não foram.

“Sim, mas você hesitou, eu vi!” quis gritar, mas não creio que teria tido qualquer resultado. Decidi não me deter mais naquele local de reminiscências pesarosas daqueles que há muito se foram, havia certamente muita história neste local, no entanto ninguém para contá-las, nem o vivo, nem os mortos. Meu intento ao vir até esta acanhada cidade era encontrar evidências, amostras, vestígios das manifestações que meu pai me contara e assegurar que o projeto da minha vida tenha substância e para atender este meu propósito era imprescindível o contato com os seres vivos, principalmente os que pudessem ter tido contato com tais acontecimentos.

Portanto, tendo isso em mente, despedi-me respeitosamente de meu interlocutor e segui adiante. Ao cruzar o portal de entrada percebi, de canto de olho, que Rodinei estava ainda em pé, voltado para mim, olhando meu caminhar com interesse um tanto alerta, possivelmente por não estar acostumado a visitantes desconhecidos, mas ainda talvez, pensei, em minha recém formulada teoria, ele estaria atento a alguém que estivesse intrometendo-se em sua vigília, que deveria ser eterna.

Continuei minha caminhada pela rua transformada em imensa passarela asfaltada, somente eu e os olhares desconfiados dos moradores através das janelas de cada casa, mais abundantes agora a partir da terceira quadra, que seguramente não estavam habituados com a presença de visitantes desconhecidos, principalmente um que aparentava tanta curiosidade nesta cidade esquecida por tanto tempo. Estariam eles também em vigília eterna?

A rua por onde percorria estava vazia, até o seu fim, mais a frente, no entanto uma rua transversal, há duas quadras de distância à minha direita, um conjunto de crianças brincavam com uma bola. Também eles cessaram sua atividade para me observar. Detive-me no cruzamento das ruas, entretido com a singularidade de tudo aquilo, nunca se sentira tão perscrutado em toda a sua vida. Subitamente toda a cidade está interessado nele, analisando seus passos, sondando seus interesses.

Uma buzina tocou e tomou seu segundo sobressalto do dia. Estava no meio do cruzamento e o veículo parado próximo a mim era novo, e dentro dele um senhor de cerca de 50 anos, mas com compleição física forte e saudável, olhava irritado na minha direção. Segundos se passaram do susto inicial e então pedi desculpas e continuei minha marcha à Praça Central, que não estava longe, já podia contemplá-la agora.

O carro passou por mim e foi embora pela rua transversal, buzinando novamente ao passar pelas crianças na rua.

O sol estava quente, e o suor já brotava da minha testa.

“Que o portal permaneça fechado”

A primeira gota de suor desceu o meu rosto e largou-se ao chão.

“e a vigília seja eterna.”

 

Continua…

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