Hoje foi o dia em que me perdi.

Os primeiros raios de sol tocavam meu rosto e revelavam os primeiros passos da trilha. A subida era íngreme, mas a leve brisa da manhã tocava meu rosto. Pensamentos passavam tão rapidamente pela minha cabeça, conforme a adrenalina da escalada aumentava, mas a concentração que a caminhada me exigia não permitia que prestasse atenção a suas nuances.

A primeira gota de suor rolava pela minha testa quando as reflexões em minha mente me dirigiam à minha infância.

“- Vamos brincar!”

“- Filho, coma tudinho, pra virar um homenzinho.”

“- Quero ser seu amigo.”

Vozes aleatórias se juntam à torrente de lembranças, nem todas elas nítidas, mas que meus passos não me permitiam atentar a seus detalhes. A subida era cansativa e perigosa, não me atrevo à olhar para trás.

Um passo em falso e escorrego, batendo meu joelho direito contra as pedras, que são muitas, e estão úmidas com o orvalho da manhã. Este pequeno vacilo trouxe a mente a insegurança da minha adolescência, os momentos em que tudo era novo e urgente. Com um chacoalhar de cabeça afastei essa reminiscência de meus lapsos, sem desenvolver o raciocínio de que é nos erros que aprendemos nossas mais perenes lições.

Sigo em frente, um passo após o outro, galgando a distância com firmeza e concentração, decidido a subir o máximo possível antes de descansar. Em minha cabeça, uma sequência de escolhas me levou a seguir um caminho, único e meu. São as escolhas que moldam nossa vida, em cada pequeno momento, e mesmo quando desistimos de alguma decisão tomada, nunca voltamos para o mesmo lugar, pois o desistir também é uma escolha, e nos conduz a um caminho diferente.

E tirando a atenção do caminho, novamente escorreguei.

– Droga! Esqueça tudo isso e siga! – enquanto segurava em uma raiz no chão, para evitar minha queda iminente.

Levantei-me e vi que a trilha ainda era muito longa, e parecia cada vez mais perigosa. Pedras se desprendiam do chão sob meus pés, galhos de árvore batiam em minha cabeça, e o caminho, antes tão aberto e nítido, cada vez mais se fechava e dificultava a passagem.

Segui, passo após passo, mesmo na dificuldade, neste longo caminho. Será que poderia haver outro mais fácil? Não era mais uma opção, estava emaranhado já neste cansativo itinerário. A bagagem começa a pesar em minhas costas, enquanto as lembranças de meus últimos dias ascendem em minha mente. Tudo parece ter se passado tão rapidamente, todas as escolhas, todas as decisões, mesmo as indecisões e curvas no caminho, tudo se passou e eu nem percebi, assim como não estou vendo nada agora.

E subitamente o sol iluminou uma clareira em meio à mata. Em meio à clareira uma pedra muito grande se ergue do solo. Com minhas últimas forças eu a escalo e subo em sua magnitude. Consigo então ver todo o caminho que percorri, as pedras soltas, a mata fechada, o barro que o sol ainda não secou. Mas a visão é ainda muito maior, vejo outros montes, outras trilhas, vejo as nuvens circulando as cordilheiras banhando suas encostas.

E o sol ilumina tudo, e aquece tudo. A vida.

Olho para o outro lado e o topo da trilha está ainda longe, mas não existe mais caminho, nenhuma trilha ainda foi traçada. E de repente o topo não tem mais tanta importância, o caminho é um só. Havia encontrado o que não sabia que procurava: a mim mesmo.

Sentei-me na rocha aquecida pelo sol e contemplei a beleza que se descortinava sob meus olhos.

Sorri.

E então acordei…

4 comentários sobre “A TRILHA

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