Ela estava cansada, não tinha mais para onde ir. Imaginava que mesmo na imensidão do mundo, não havia lugar para ela.

Os garotos no colégio não a procuravam, e a timidez não permitia que chegasse perto deles. Não que tivesse uma fisionomia feia mas, por algum motivo, ela não tinha nenhum atrativo para eles. Os comentários irônicos e os olhares maldosos. Tudo fazia com que sua autoestima fosse cada dia menor, que se achasse deslocada, sentia-se como se não fosse bem vinda no mundo das “pessoas normais”. Quando estava quietinha, sentada em seu banco, mais de uma vez escutou referirem-se a ela como “esquisita”, e devido a isso, a partir de agora procurava manter sua mente ocupada todo o tempo, escutando música, lendo um livro, escrevendo algo, qualquer coisa que a desconectasse desse mundo insensível a si. Até mesmo seus amigos, as pessoas que a tratavam bem, e que eram tão “diferentes” quanto ela, até mesmo eles conseguiam lidar com os demais muito melhor do que ela, o que aumentava ainda mais o sentimento de que era uma excluída, incapaz de se relacionar com o mundo normal a sua volta. Tudo é difícil e incompreensível!

“Ah, quando mamãe estava comigo era tudo tão mais simples, a vida era muito mais fácil. Sua força e seu carinho me sustentavam, e ela saberia muito bem como lidar com tudo isso.”

Mas ela se fora, e o homem que havia tomado seu lugar, que se intitulava seu pai, era apenas um carrasco, um ser desumano que a violentava por dentro e por fora e destruía, uma a uma, cada pequena conexão dela com a vida. Ao final de cada dia de aula, não tinha vontade de voltar para casa, o vagabundo não trabalhava e parecia adorar fazer da vida dela um inferno, desprezando seus sentimentos e ignorando suas necessidades. Na verdade, desejava nunca mais voltar para aquela casa, para aquele monstro, queria fugir, sumir daquele lugar, mas infelizmente não tinha para onde ir.

Deitada sozinha em seu quarto à noite, não dormia. E quando conseguia pegar no sono, seus sonhos eram desagradáveis. Preferia então ficar acordada, lembrando de sua mãe, que foi a única alegria que teve em sua vida, e que lhe foi dolorosamente arrancada. Não raro, chorava noites inteiras. Queria mudar aquilo tudo, queria lutar, mas não tinha forças e sua esperança era cada dia menor. Mas o pior é que ela não sabia o que fazer, estava confusa, e essa confusão estava consumindo totalmente sua alegria de viver.

Sem alegria, sem esperança. E quando a personagem daquele livro que estava lendo se jogou da sacada como solução para uma vida vazia, ela considerou também resolver sua vida com a sua morte. Mas algo em seu coração não permitiu que chegasse a tal extremo. Algo sutil, que ela nunca soube dizer o que era e de onde veio, mas que foi suficiente para mudar sua triste escolha.

Um domingo, cansada do que acontecia naquela casa, resolveu ir à igreja. Não tinha mais para onde ir e lá, ao menos, não encontraria pessoas que a odiassem. Na missa o padre falou sobre amor, paz e fé. Ela não tinha ideia do que aquelas palavras queriam dizer. Na saída, pais, mães, filhos, amigos, famílias, todos se abraçando, sorrindo, brincando. Tudo era tão lindo que abriu um pequeno sorriso em seu rosto, o que durou uma fração de segundos e tornou-se então dor e tristeza. A realidade atingiu-lhe como um soco. Andou cerca de três quadras na direção oposta à sua casa e desabou em um choro copioso sentada no meio fio da calçada. Mas para sua surpresa, quando levantou a cabeça percebeu que a rua estava deserta, vazia demais até mesmo para uma manhã de domingo. Ninguém vinha da direção da igreja, que estava cheia, e as casas dos dois lados da rua não emitiam um ruído sequer. Nenhum veículo, nenhum pedestre. Nada. Somente a rua, que se alongava para os dois lados, o sol quente em um céu sem nuvens, e agora uma leve brisa suave que tocou seu rosto e secou suas lágrimas. Subitamente sentiu uma sensação tão agradável, algo que não lembrava de já ter sentido algum dia. Fechou os olhos e sentiu, sentada ali no concreto do meio fio, como quando sentava no colo de sua mãe e ela acariciava delicadamente seus cabelos, depois a abraçava carinhosamente e então ficavam sozinhas em um momento somente delas. Sentiu até mesmo o perfume doce e afável que emanava dela, e lembrou de como foram felizes juntas.

– Mãe… – disse em voz alta, certa de que a mãe estava ali.

Abriu os olhos e estava ainda sozinha, a rua ainda vazia, o sol ainda queimando. A tristeza subiu de seu coração para os olhos novamente, e mais uma lagrima caiu. Mas por incrível que pareça ela não chegou a rolar por sua bochecha, foi seca novamente pela brisa suave que tocou seu rosto e que aquecida pelo sol a envolveu como em um abraço gostoso. Fechou novamente os olhos, pois agora estava certa de que não estava sozinha.

– Mamãe, sinto tanto a sua falta… –  e seu coração queimou com uma chama que ela jamais sentira antes.

O abraço forte e caloroso ainda a prendia, e então sentiu um beijo em sua face, o mesmo beijo que sua mãe dava-lhe todos os dias pela manhã e que enchia de força e felicidade seu dia, sua vida, um carinho tão perfeito e completo, que nada mais importava no mundo. E percebeu então que sua mãe estava sim com ela ali naquele momento, que esteve com ela em todos os momentos de sua vida desde que partiu, só ela que nunca tinha percebido.

Abriu os olhos novamente, mas agora a rua estava novamente viva. Pessoas passavam próximas a ela, carros seguiam na rua, das casas gritos, risos e música agora ecoavam. O mundo voltou ao normal. Mas ela não, agora jamais seria o que tinha sido antes. Sua mãe estava contigo, ela sabia. Seu coração estava em brasa e sentiu uma mão segurando a sua enquanto caminhava pela calçada. O mundo tinha adquirido novas cores, mais alegres, quentes e vivas.

Naquela noite dormiu bem, e sonhou com sua mãe. Não estava mais sozinha. Nunca mais estaria.

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